Juros atingem máxima em duas décadas nos EUA e Europa e complicam ainda mais a vida do Brasil

A liquidação nos mercados globais de títulos, em meio a temores inflacionários, ganhou força nesta semana, levando os juros longos dos Treasuries a máximas em duas décadas e ampliando a pressão sobre a dívida soberana europeia. O movimento combina expectativas de política monetária mais apertada por mais tempo, resiliência da economia americana, energia cara e preocupações fiscais, enquanto investidores discutem até que ponto o boom de inteligência artificial (IA) também ajuda a empurrar os rendimentos para cima.

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O movimento global traz reflexos negativos para o Brasil. A alta dos juros americanos tende a tornar o ambiente externo mais difícil para o País e reduzir a margem para cortar a Selic. Com os Treasuries oferecendo retornos maiores, investidores podem exigir uma remuneração também maior para manter recursos em mercados emergentes, o que pode pressionar o câmbio e elevar o custo de financiamento do governo, num momento já complicado de alta do endividamento brasileiro.

Esse cenário, porém, não é exclusivo dos americanos e já se espalha pelos principais mercados desenvolvidos. Nos Estados Unidos, assim como nas principais economias da Europa, o rendimento dos títulos públicos de longo prazo ronda as máximas desde o início dos anos 2000. O spread entre o Bund alemão de dez anos e OAT francês de mesmo prazo chegou a cerca de 1,30% (130 pontos-base), maior nível em 14 anos, segundo a Tradeweb.

O aperto das condições financeiras já se mostra evidente em alguns setores: o iTraxx Europe Crossover, que acompanha o risco de calote de empresas europeias de maior risco, subiu a 3,05% (305 pontos-base), máxima em quase seis meses.

A leitura sobre as causas, porém, não é uniforme. Ao Estadão/Broadcast, o economista de mercados da Capital Economics Elias Hilmer afirma que os yields (rendimento) podem, em tese, subir ainda mais, levando em consideração três potenciais catalisadores para uma nova rodada de venda: primeiro, se o Estreito de Ormuz permanecer fechado e os preços de energia continuarem elevados ou subirem mais; segundo, se as “hyperscalers” (grandes empresas de tecnologia) dos EUA continuarem a ampliar a emissão de dívida para financiar a expansão de data centers; e terceiro, a dívida pública americana, que está em uma trajetória insustentável.

O banco Brown Brothers Harriman (BBH) avalia que a alta dos juros longos reflete uma trajetória esperada de política monetária mais apertada e elevação dos prêmios reais de prazo, enquanto as expectativas de inflação de longo prazo seguem ancoradas. A instituição também demonstra preocupação com o aumento das dívidas dos governos e com o risco de que a maior emissão de títulos pelas grandes empresas de tecnologia reduza o dinheiro disponível para outros setores. O ING estima que a inflação responde por cerca de 50% da pressão sobre os juros longos nos EUA, a narrativa fiscal por 30% e a IA pelos 20% restantes. Dentro do componente de IA, o banco atribui 70% ao potencial de produtividade, 25% ao aumento das emissões e 5% ao impulso direto dos gastos. Para o banco holandês, portanto, o impacto da tecnologia existe, mas ainda é secundário diante da inflação e dos déficits.

A oferta de dívida corporativa é um dos canais dessa pressão. Segundo o ING, as emissões corporativas em dólar somaram US$ 878 bilhões no acumulado de 2026, 54% acima do mesmo período do ano passado, puxadas pelo setor de tecnologia, mídia e telecomunicações, com maior concentração também nos prazos longos.

A Capital Economics apresenta leitura diferente para os Treasuries. Para a consultoria, a alta recente decorre “quase inteiramente” da revisão para cima das expectativas de juros de curto prazo, diante da energia mais cara e de sinais de crescimento forte nos EUA, enquanto as estimativas de prêmio de prazo recuaram. A casa considera a liquidação exagerada e projeta queda do rendimento da T-note de 10 anos para 4,75% no fim de 2026 e 4,25% no fim de 2027.

Essa divergência ganhou relevância após dados americanos mistos. O PCE de agosto veio abaixo do esperado, mas a revisão para cima do PIB do primeiro e segundo trimestres reforçou a percepção de resiliência da atividade, alimentada pela disparada do PMI em setembro. Na semana passada, o presidente do Fed de Minneapolis, Neel Kashkari, afirmou que ainda não sabe até onde os juros precisarão subir e destacou a “grande diferença” entre as taxas de curto prazo e o rendimento da T-note de dois anos.

Ao mesmo tempo, disse continuar surpreendido pela força da economia. Os spreads no mercado de Treasuries chamam ainda mais a atenção ao se lembrar de que, poucos meses atrás, a curva de juros nos EUA operava invertida, com o retorno da T-note de 2 anos superando o da T-note de 10 anos. Em abril do ano passado, a chance de recessão global e nos EUA era estimada em 60% pelo JPMorgan.

Robin Brooks, economista-chefe do Brookings Institute, observa que a curva dos Treasuries voltou a inclinar, mesmo com a redução das apostas em alta de juros em outubro. Para ele, a ausência de orientação mais clara do Fed faz com que cada reunião se transforme em novo confronto entre banco central e mercados. Brooks avalia ainda que os dados do PCE não mostram uma ampliação da inflação que justifique, por si só, novo aperto neste mês.

No centro do debate sobre o futuro da política monetária nos EUA está o risco inflacionário, que tem como ponto mais sensível no momento a questão energética. O Barclays calcula que a alta de cerca de 80% do diesel no ano, se persistente, poderia acrescentar entre 20 e 30 pontos-base à inflação cheia e cerca de 15 a 23 pontos-base ao núcleo, com efeitos graduais sobre estoques, contratos e decisões de preços.

Nesse sentido, fontes disseram à imprensa americana que o presidente dos EUA, Donald Trump, pressiona a União Europeia a liberar cerca de um terço de suas reservas de diesel ao longo de seis meses, uma alternativa à ameaça de proibição total às exportações do combustível pelos EUA. Nesta manhã, a Comissão Europeia e alguns países europeus realizaram uma conferência telefônica para discutir a questão.

Na Europa, o componente fiscal é especialmente visível na França, Alemanha e Reino Unido. O ING avalia que o Orçamento de 2027 da França pode evitar uma deterioração ainda maior do déficit, mas não estabiliza a dívida e deve manter os OATs sob pressão. A instituição vê o spread de 10 anos ante o Bund permanecendo bem acima de 100 pontos-base e podendo testar a região de 150 pontos-base.

A dívida pública francesa atingiu um nível recorde durante os dois mandatos do presidente da França, Emmanuel Macron, gerando apreensão entre investidores e emergindo como uma questão decisiva para a eleição presidencial do próximo ano. Hoje, o governo da França informou que o orçamento voltará a ultrapassar os limites de gastos da UE e que a dívida pública deve subir para quase 122% do Produto Interno Bruto (PIB), um novo recorde. O aperto das condições financeiras já começa a transbordar para outros ativos. Para Russ Mould, da AJ Bell, a disparada dos rendimentos soberanos globais para máximas em décadas sinaliza maior nervosismo e menor disposição dos investidores para assumir risco. A Capital Economics também alerta que a resiliência das bolsas à alta dos yields pode não durar indefinidamente se energia e juros continuarem avançando.


Fonte: Estadão

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