Negociadores do Brasil avaliam que eleição em aberto bloqueia acordo com EUA por tarifaço

BRASÍLIA – Os principais negociadores comerciais do Brasil avaliam que, antes do fim das eleições presidenciais, as tratativas com os Estados Unidos para encerrar o tarifaço e estabelecer uma parceria mais ampla não vão evoluir. A indefinição sobre o futuro presidente brasileiro bloqueia, na prática, o avanço das conversas por um acordo.

O Estadão ouviu, sob reserva, dois negociadores envolvidos diretamente nas discussões bilaterais com os EUA. Eles estiveram presentes em todas as últimas rodadas de conversas com o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), retomadas a partir de telefonema entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump, no dia 21 de agosto.

Além da interlocução direta, por videoconferência ou presencial, também se envolveram nas consultas com diplomatas e autoridades do USTR perante a Organização Mundial do Comércio (OMC).

A avaliação deles é compartilhada com integrantes do Palácio do Planalto. Apesar de o governo brasileiro ter dito que os americanos iriam propor, nas próximas semanas, um documento para servir de base a novas tratativas com vistas a um acordo, envolvendo questões tarifárias e não tarifárias, segundo o ministro Elias Rosa, o USTR pediu ontem mais três a quatro semanas para concluir uma proposta.

De acordo com esses negociadores, os EUA vão aguardar a definição da Presidência da República, em provável segundo turno, porque entendem que seria muito mais vantajoso a eles negociar com um governo Flávio Bolsonaro (PL).

Ao contrário do governo Lula, o candidato de oposição já prometeu alinhamento e disse que negociaria um acordo de livre-comércio com os EUA. Algo que os americanos nunca discutiram com o petista.

Mesmo antes da reunião entre Mauro Vieira (Itamaraty), Márcio Elias Rosa (Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) e Jamieson Greer (USTR), os negociadores já previam que a eleição brasileira era um empecilho à evolução e à circulação de propostas concretas e documentadas.

Para um deles, não faria sentido mandar propostas agora, porque com “a negociação com este governo é uma coisa, e com o governo Flávio é outra e eles poderão ter tudo”.

A estratégia do governo Lula, porém, é manter publicamente a disposição de diálogo, buscar contatos e reuniões e mostrar que mantém interlocução ativa com o governo Trump, até como vacina para críticas correntes de que o governo não quis negociar, não atuou de boa fé e não tem acesso a autoridades americanas.

Embora os dois lados falem em chegar a um acordo, o Planalto tem ciência de que a discussão “não será de curto prazo” e compreende a lógica americana de esperar para ver com quem vai negociar, admite um integrante do governo. Um mês se passou desde a videoconferência agenda a mando dos presidentes, quando o lado brasileiro já tinha expectativa de receber um documento de Greer com o arcabouço de uma acordo, contendo propostas e áreas de interesse. O papel não chegou na reunião de 40 minutos realizada nesta quarta-feira, dia 30, em Milwaukee.


Fonte: Estadão

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