Acelerar a adoção de IA no Brasil é urgente, mas urgência sem estrutura é só barulho
O Brasil Adiante, projeto especial do Estadão que reuniu especialistas, empresários e a sociedade civil para propor soluções práticas aos principais desafios do País, trouxe a pauta da inteligência artificial para o centro do debate. O Brasil tem uma janela de oportunidade com a IA que não vai ficar aberta para sempre. Pesquisa da KPMG com 150 líderes de tecnologia brasileiros mostrou que 100% das empresas entrevistadas já implementaram alguma forma de automação ou IA. O número impressiona até você ler a continuação: 45% dessas mesmas empresas operam com múltiplos projetos desconectados entre si. A ambição corre mais rápido do que a execução. E quando isso acontece em escala nacional, o resultado não é transformação. É fragmentação, cara.
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A ideia de acelerar a adoção de IA na economia e no setor público parte de um dado incontestável: a IA tem o potencial de adicionar até R$ 986 bilhões ao PIB brasileiro até 2030, segundo pesquisa do Reglab. Esse número representa 7,6% do PIB estimado de 2026. Não é utopia. É projeção fundamentada, desde que a execução acompanhe a ambição.
Agora tem fatores incríveis que falam a favor. O Brasil tem ativos que poucos países em desenvolvimento possuem simultaneamente. Um setor financeiro altamente digitalizado que já usa IA em crédito, detecção de fraude e personalização de produto. Uma base de dados públicos de escala alimentando aplicações de machine learning em órgãos federais. Uma plataforma de governo digital, o Gov.br, com mais de 160 milhões de usuários cadastrados, uma das maiores infraestruturas de governo digital do mundo. E um ecossistema de startups que já provou que consegue construir produto tecnológico de qualidade global.
No setor público, os resultados em que a IA já foi implementada são concretos. Prefeituras que adotaram soluções de IA reportam potencial de redução de despesas operacionais em até 30% e ganho de produtividade de até 40% em processos automatizados. O problema é que apenas uma em cada dez prefeituras brasileiras usa IA. A tecnologia que poderia transformar a gestão pública existe, funciona e já está disponível. O que falta não é a ferramenta. É a decisão de usar.
Porém, temos reveses. A aceleração sem estrutura produz o oposto do que promete. O Brasil investe menos de 1,2% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, metade do que economias comparáveis gastam. A infraestrutura digital é desigual: o acesso à internet de qualidade ainda não chegou a boa parte do interior do país, e IA que só funciona nos grandes centros não é transformação nacional, é concentração de mais um recurso nas regiões que já têm tudo.
O talento é o gargalo mais honesto. O Brasil forma profissionais de tecnologia, mas em volume insuficiente para o ritmo de adoção que a proposta sugere. Empresa que quer implementar IA e não encontra quem opere o sistema acaba com tecnologia cara parada ou, pior, mal usada. Ferramenta poderosa operada por quem não foi treinado para usá-la é risco, não solução.
No setor público, o obstáculo mais difícil não é tecnológico. É cultural. Burocracia que funciona há décadas num modelo manual não muda de comportamento porque chegou um sistema novo. Muda quando a liderança exige a mudança, quando o servidor entende o que ganha com ela e quando o processo de adaptação tem suporte real. Implementar IA no governo sem cuidar da transição humana é trocar formulário de papel por formulário digital. A ineficiência muda de suporte, não de natureza.
Como entusiasta, acompanho há anos a adoção de IA em empresas brasileiras de médio porte como investidora, e o padrão que separa quem consegue resultado real de quem fica no piloto eterno é sempre o mesmo. Não é a tecnologia escolhida. É a clareza sobre qual problema específico a IA vai resolver, quem vai operar o sistema depois que o projeto de implantação acabar e como o resultado vai ser medido. Proposta que responde a essas três perguntas tem chance. Proposta que para na compra da ferramenta, não.
Para o setor público, a aceleração que vai funcionar não é a que instala IA em todo lugar ao mesmo tempo. É a que escolhe dois ou três processos com alto volume, baixa variabilidade e impacto mensurável, implementa com rigor, mede o resultado e expande a partir da evidência. O Piauí fez isso com o SoberanIA, sistema de IA pública que está sendo levado a Brasília como referência nacional. Começou pequeno, funcionou, cresceu.
Para a economia, a aceleração que vai funcionar passa por formação de talento antes de compra de tecnologia. País que capacita a mão de obra antes de instalar o sistema chega em 2030 com vantagem competitiva real. País que compra o sistema e treina depois chega em 2030 com dívida e projeto parado.
Fonte: Estadão
