Redução de jornada tem perdas e ganhos para a economia e tema deve avançar com cautela no Congresso

A discussão sobre a escala 6×1 deve avançar no Congresso este ano, mas desde que cada lado entenda que as alterações nesse tema podem ter impactos profundos no mercado de trabalho. Os empregados sob essa escala têm razão em reclamar e se sentir exaustos por só folgar um único dia da semana, da mesma forma que os empregadores também têm razão em alertar que pode haver efeitos sobre a inflação, a produtividade e o número de vagas.

Em um momento de rara sensatez, depois de ter patrocinado um projeto de aumento de gastos com servidores na semana passada, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), disse que haverá celeridade, mas com responsabilidade na tramitação do texto. Como a bancada do agronegócio é forte na Casa, e esse é um setores que podem ser impactados pela medida, o risco de que a proposta saia do controle diminui, ainda que em ano eleitoral. Isso é bom para a economia.

O estudo divulgado pelo Ipea na última terça-feira – e recomendado pelo Ministério da Fazenda – mostra que o País tem poucos dados para discutir o tema com profundidade, já que nem o IBGE nem o Ministério do Trabalho têm informações organizadas sobre a escala de trabalho. Por isso, os autores afirmam que as conclusões do texto, de que as empresas têm margem para absorver esse aumento de custos, são apenas um ponto de partida para o debate.

O pior caminho é seguir o discurso fácil como o do ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, que citou a resistência dos empregadores ao salário mínimo na era Vargas. Nas redes sociais, há quem compare com a resistência da elite brasileira ao fim da escravidão.

Não é disso que se trata, mas sim de modernizar as leis trabalhistas a um contexto novo de emprego que envolve produtividade, saúde mental, gastos com transporte, de um lado, e riscos de pressão sobre a inflação, a taxa de juros e quebradeira de pequenas e médias empresas, de outro. Tudo isso com a inteligência artificial ameaçando postos e carreiras inteiras.

Se houver a redução da jornada máxima de seis para cinco dias, mas com a manutenção da escala em até 44 horas, a adaptação dos empregadores fica mais fácil para reorganizar a escala. Trabalha-se um pouco mais nos outros cinco dias como forma de compensação. Mas a ideia de reduzir a jornada para 40 ou até para 36 horas com a manutenção salarial pode ser um tiro no pé para os próprios empregados.

Se houver a redução da jornada máxima de seis para cinco dias, mas com a manutenção da escala em até 44 horas, a adaptação dos empregadores fica mais fácil para reorganizar a escala. Trabalha-se um pouco mais nos outros cinco dias como forma de compensação. Mas a ideia de reduzir a jornada para 40 ou até para 36 horas com a manutenção salarial pode ser um tiro no pé para os próprios empregados.

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Fonte: Estadão

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