Tarifas de Trump põem em risco a espinha dorsal da cadeia global de peças para automóveis

Em uma fábrica em Hekinan, uma cidade litorânea a sudoeste de Tóquio, máquinas lançam barras de metal quente em cestas. Em uma recente segunda-feira, a luz da tarde entrava pelas janelas amareladas e o ar dentro da fábrica estava quente e cheirava a aparas de metal.

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A fábrica, operada pela Asahi Tekko, uma fabricante japonesa de peças automotivas com 84 anos, produz componentes que são instalados nos modelos Lexus e Land Cruiser nas fábricas da Toyota nas proximidades. Muitos desses veículos são então enviados para os Estados Unidos.

Durante décadas, essa rota foi uma das muitas linhas de abastecimento que sustentam a indústria automotiva. Agora, porém, ela é motivo de preocupação para a Asahi Tekko, que enfrenta as recentes flutuações nas políticas comerciais dos EUA.

Quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, estabeleceu uma tarifa de 25% sobre automóveis e peças japonesas este ano, Tetsuya Kimura, diretor executivo da Asahi Tekko, pensou: “Ele realmente vai fazer algo assim?”, lembrou Kimura. Ele acrescentou: “O raciocínio parecia muito simplista”.

A Asahi Tekko ainda não sentiu o efeito total das tarifas, que serão fixadas em 15% como parte do recente acordo comercial do Japão com o governo Trump. Ainda assim, a incerteza é inquietante. Kimura teme que elas possam prejudicar a demanda americana por carros e reduzir a necessidade de suas peças.

“Quando se trata do impacto que essas tarifas terão, não temos como calcular”, disse ele.

Sob o governo Trump, praticamente todos os maiores países fabricantes de automóveis do mundo estão sujeitos a tarifas de dois dígitos sobre automóveis e peças automotivas. Embora grandes fabricantes estrangeiros de automóveis, como a Toyota, tenham lucros para absorver os custos adicionais, especialistas do setor esperam um efeito mais devastador sobre as densas redes de fornecedores de peças automotivas que fabricam tudo, desde pistões até fiação.

Nos maiores países produtores de automóveis do mundo, como Japão, Alemanha e Coreia do Sul, milhares de pequenos e médios fornecedores de peças formam a espinha dorsal do setor manufatureiro. Os Estados Unidos são o maior comprador de veículos acabados montados nesses países e o maior importador direto de componentes do Japão e da Coreia do Sul.

Ao contrário de alguns fabricantes de automóveis, os fornecedores operam frequentemente com margens de lucro muito reduzidas e não têm dinheiro para investir na transferência da produção para outros países. Mas as tarifas são apenas o mais recente problema para as empresas. Elas também enfrentam a transição para veículos elétricos, que poderá tornar obsoletas muitas das peças que produzem para veículos com motor de combustão.

“Os pequenos players da indústria automotiva não têm alavancas que possam acionar para se ajustar às tarifas”, disse Michael Robinet, vice-presidente da S&P Global Mobility, uma provedora de inteligência automotiva. A mudança para veículos elétricos e o aumento da concorrência com chineses já estão levando os fornecedores a se consolidarem. “As tarifas são apenas um acelerador”, disse ele.

O setor de peças automotivas do Japão emprega mais de 600 mil pessoas em cerca de 20 mil empresas, muitas das quais são vitais para a indústria em áreas rurais do país. A indústria de peças da Coreia do Sul emprega cerca de 330 mil pessoas, enquanto na Alemanha os fornecedores representam cerca de um terço das mais de 700 mil pessoas no setor automotivo.

As interrupções nos fluxos comerciais já estão se tornando evidentes. No Japão, o valor e o volume das peças automotivas enviadas para os Estados Unidos caíram a cada mês desde maio, quando as tarifas sobre elas entraram em vigor. Em julho, o valor das peças automotivas enviadas para os Estados Unidos caiu 17,4% em relação ao ano anterior.

Em uma pesquisa recente realizada pela Câmara de Comércio e Indústria da Coreia, a maior organização empresarial da Coreia do Sul, 81% das empresas automotivas e de componentes automotivos afirmaram que as tarifas prejudicariam seus lucros.

As tarifas já custaram bilhões de dólares à indústria automotiva alemã, disse Hildegard Müller, presidente da Associação Alemã da Indústria Automotiva. No mês passado, a União Europeia chegou a um acordo com os Estados Unidos que reduziria as tarifas automotivas para 15%, mas Müller disse que o acordo não trouxe “clareza ou melhoria” para as empresas.

Nos detalhes do acordo entre os EUA e a UE publicados na semana passada, os dois lados afirmaram que os Estados Unidos reduziriam as tarifas sobre veículos somente depois que a Europa tomasse medidas para reduzir suas próprias tarifas sobre produtos americanos. O Japão e a Coreia do Sul também aguardam a entrada em vigor da redução das tarifas sobre automóveis prometida em seus próprios acordos comerciais com os Estados Unidos.

No mês passado, o Fundo Monetário Internacional projetou que as tarifas dos EUA pesariam significativamente sobre o crescimento na Alemanha, bem como na Coreia do Sul e no Japão. Ele previu que as três economias cresceriam este ano e no próximo apenas cerca de dois terços do ritmo que havia previsto em janeiro.

Isso fez com que os governos se apressassem em oferecer ajuda. A Coreia do Sul reservou cerca de US$ 11 bilhões para apoiar os fabricantes. Citando as tarifas como uma “crise nacional”, o governo japonês do primeiro-ministro Shigeru Ishiba alocou US$ 6,3 bilhões para apoiar as empresas afetadas e planeja abrir mil centros de consultoria em todo o país.

Ao mesmo tempo, novos desafios estão surgindo. Na semana passada, o governo Trump anunciou que tarifas de 50% estão agora em vigor para mais de 400 tipos adicionais de produtos, incluindo muitas peças automotivas, que contêm alumínio ou aço. Esses produtos foram adicionados a uma lista existente de produtos metálicos tarifados que já incluía muitos outros componentes automotivos.

Para alguns funcionários e trabalhadores da indústria no Japão, Coreia do Sul e Alemanha, o medo iminente é que o aumento dos custos tarifários obrigue alguns fornecedores a transferir a produção de seus países de origem para os Estados Unidos. Isso efetivamente esvaziaria suas indústrias nacionais e pesaria sobre o crescimento econômico.

Em abril, o governo Trump concordou em conceder uma suspensão parcial de dois anos das tarifas sobre peças automotivas para empresas que finalizam a montagem de carros nos Estados Unidos. Trump, que defendeu as tarifas como uma forma de trazer de volta os empregos perdidos na indústria, disse que estava dando à indústria “uma pequena ajuda” na transição para componentes fabricados nos Estados Unidos.

Essa isenção temporária veio após pedidos de montadoras americanas, como a General Motors, que compra muitas peças do México e da Coreia do Sul. As empresas avisaram que as taxas anunciadas antes aumentariam os custos de produção e cortariam bastante os lucros.

O governo Trump disse que os fabricantes nos Estados Unidos teriam de comprar seus componentes no país para evitar tarifas mais altas depois do adiamento de dois anos.

Na Coreia do Sul, assim como no Japão e na Alemanha, muitos fornecedores já haviam transferido parte da produção para os Estados Unidos nas últimas décadas. Mas alguns fornecedores resistiram à mudança para evitar custos de produção mais altos nos Estados Unidos, de acordo com Seongdae Cho, diretor do departamento de estudos comerciais e cooperação da Associação de Comércio Internacional da Coreia, uma das maiores organizações empresariais do país.

Quando o adiamento terminar, as empresas que ainda fornecem o mercado americano a partir do exterior estarão em significativa desvantagem. “Elas podem chegar a uma encruzilhada entre serem substituídas e terem de produzir nos EUA”, disse ele.

No Japão, Kimura, diretor executivo da Asahi Tekko, disse que a empresa, por enquanto, não planeja mudar significativamente suas operações. Ela continuará monitorando a demanda no mercado americano enquanto tenta aumentar a eficiência, principalmente usando mais inteligência artificial. Durante uma entrevista recente, Kimura perguntou a um bot personalizado que ele mesmo criou no ChatGPT, chamado “Kimutetsu”, como reduzir o efeito das tarifas sobre seus negócios. O bot respondeu que ele deveria usar a pressão externa como um “trampolim” para mudar a estrutura da empresa e torná-la mais lucrativa.


Fonte: Estadão

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