Lula e Flávio agravam risco fiscal e fazem promessas na economia descoladas da realidade
Está cada vez mais difícil diferenciar as propostas econômicas populistas de Lula das de Flávio Bolsonaro. Se o candidato do PT anunciou passe livre nos fins de semana, o do PL prometeu ressuscitar o Perse. Se Lula rejeita mudar as regras do salário mínimo e dos pisos de saúde e educação, Flávio nega que pretenda mexer nessas políticas, justamente as que mais pesam sobre o Orçamento. No Bolsa Família, Lula acaba de corrigir o benefício pela inflação, e Flávio prometeu estender para dois anos o período para quem consegue emprego formal continuar com o benefício.
A lista de Lula é mais longa e inclui medidas já em vigor, porque ele tem a caneta na mão. Jair Bolsonaro também tinha em 2022, quando patrocinou a PEC Kamikaze – após PEC do calote dos Precatórios de um ano antes – e ajudou a implodir o teto de gastos criado no governo Temer. Muita gente parece ter esquecido essa gastança bolsonarista.
O Perse custou cerca de R$ 50 bilhões em renúncias fiscais em três anos e abriu brechas para abusos e suspeitas de fraude. Plataformas de entrega de comida, clubes de futebol e influenciadores aproveitaram as regras frouxas para se beneficiar. Era para ser uma medida emergencial para socorrer o setor de eventos na pandemia, mas virou um benefício quase perpétuo, até que o ministro Fernando Haddad comprou uma briga no Congresso para fechar essa torneira.
As estimativas de custo do passe livre de Lula vão de R$ 8 bilhões a R$ 60 bilhões por ano. O presidente quer usar emendas parlamentares para bancar a proposta, o que deixaria o efeito sobre o Orçamento neutro, segundo a equipe econômica. O valor é incerto porque é daqueles anúncios que carecem de detalhes. E o uso das emendas não foi combinado com o Congresso, o que aumenta o risco de novos embates entre Executivo e Legislativo caso Lula seja reeleito.
De forma surpreendente, e quase binária, grande parte do mercado financeiro aposta numa guinada para melhor no controle das contas públicas em caso de vitória da família Bolsonaro. A aposta, quase uma condescendência com o candidato da extrema direita, é de que Flávio está apenas fazendo o jogo de cena na campanha e praticará estelionato eleitoral depois de vencer no próximo domingo.Dilma Rousseff prometeu mundos e fundos em 2014, fez o ajuste que negara na campanha e viu sua popularidade despencar depois de uma forte recessão. Há limites para tentar enganar o eleitor. Na economia, a conta do populismo sempre chega.
Fonte: Estadão
