Dianteira de Flávio Bolsonaro gera expectativa por ajuste fiscal, mas ‘pauta da vingança’ pode atrapalhar
Adriana Fernandes Idiana Tomazelli
Brasília
A arrancada final do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), que o colocou à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno das eleições, e a nova configuração do Congresso Nacional em 2027 alimentaram em parte dos economistas e agentes do mercado financeiro a expectativa de melhores condições para a aprovação de medidas de ajuste nas contas.
Essa perspectiva já impulsiona preços de ativos e deve abrir caminho para uma redução das taxas de juros nos próximos dias. Mas o otimismo divide espaço com o temor de que a chamada “pauta da vingança” assuma o protagonismo num eventual governo Flávio, ocupando o tempo que seria precioso para avançar nas discussões econômicas.
Essa pauta de retaliação inclui a anistia a Jair Bolsonaro (PL) e aos envolvidos na tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023 e a discussão de impeachment de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal). Levantamento da Folha mostra que o Senado terá ao menos 49 congressistas que apoiam o afastamento de ministros do Supremo, só cinco abaixo dos 54 necessários. O risco, segundo parte dos economistas, é que isso leve a uma tensão institucional ainda maior.
A Folha ouviu economistas, empresários e representantes do mercado sobre o resultado do primeiro turno das eleições. Alguns preferiram falar sob condição de anonimato. A reportagem também tentou ouvir integrantes da área econômica do governo Lula, que se mantiveram em silêncio nas horas que se seguiram à apuração.
Na avaliação dos especialistas, o resultado das urnas dá conforto a Flávio para seguir com a estratégia de não detalhar as medidas de ajuste que adotará se for eleito. Assessores do candidato já acenaram com uma melhora fiscal equivalente a 1,5% do PIB (Produto Interno Bruto), mas evitaram dizer como, uma vez que ações nessa direção são geralmente impopulares e poderiam subtrair votos.
O empresário Flávio Rocha, dono das Lojas Riachuelo, diz que a eleição é determinante para criar um melhor ambiente de negócios e menor insegurança jurídica. “Minha torcida é para que haja um maior sentido de responsabilidade na gestão das contas públicas”, afirma.
Para ele, que apoiou o governo de Jair Bolsonaro (PL) bem como a candidatura de Flávio à Presidência, o Senado terá uma renovação salutar para levar as instituições a cumprirem suas obrigações constitucionais.
Rocha defende uma equidade concorrencial no próximo governo, o que, segundo ele não acontece agora por motivações eleitoreiras. “Nosso setor tem sido extremamente penalizado por uma concorrência predatória”, afirma. Ele diz esperar também que Flávio, se eleito, cumpra a promessa de fazer uma revisão da reforma tributária. “Ele vai ter que ter coragem de reabrir essa questão.”
O ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles diz que não houve debate aprofundado de propostas econômicas e acredita que esse quadro não deve mudar até o segundo turno.
“Precisa uma política fiscal rigorosa, para barrar o aumento da dívida, e isso não é algo que normalmente candidatos gostam de falar em eleições”, avalia. Para ele, não é do interesse de nenhum dos candidatos apresentar essas propostas.
Meirelles prevê que o senador Flávio Bolsonaro vai manter a estratégia e não falar de medidas fiscais, nem adiantar nomes para o ministério. “Tem uma chance que fale mais, mas o meu palpite é que é mais provável que não. Ele iria talvez conquistar apoio da Faria Lima, mas pode desagradar muita gente”, afirma.
Para o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga, Flávio sai das urnas no primeiro turno como favorito, o que favorece a estratégia de evitar detalhar propostas. “Com essa folga que ele tem, ele provavelmente não vai querer mexer muito”, afirma.
O economista ponderou, no entanto, que não estão claros ainda os sinais do candidato na economia, como as medidas a serem adotadas para alcançar superávits nas contas públicas. “Ele já comentou sobre o salário mínimo e a indexação da Previdência, enfim, dos programas em geral. Mas não está claro para onde isso vai andar.”
Para João Camargo, presidente do conselho da Esfera Brasil, as bondades eleitorais anunciadas por Lula às vesperas da eleição acabaram sendo prejudiciais. “A reta final mostrou que o incumbente não pode usar caneta achando que vai enganar o povo. O povo viu tudo. Esse negócio das bets, a maneira que ele fez foi horrorosa. Esse negócio das canetinhas, não tem caneta para comprar”, diz.
Ele projetou alta de 5% da Bolsa nesta segunda-feira (5) e diz que, se Flávio Bolsonaro for eleito e demonstrar que vai arrumar as contas públicas, o Banco Central poderá fazer um corte de 300 pontos na taxa Selic —ou seja, uma redução de 3 pontos percentuais em relação aos atuais 13,75% ao ano.
Colaborador da campanha de Flávio Bolsonaro, o financista Marcelo Kayath avalia que a votação está em linha com o quadro no resto do mundo e, particularmente, na América Latina
“Os resultados da eleição mostram uma guinada à direita e um desejo claro de mudança em relação ao governo atual. Vejo de maneira especialmente positiva o resultado da eleição para o Congresso”, afirma ele, que foi diretor do banco de investimentos do Credit Suisse e hoje é sócio da gestora QSM Capital.
“Isso cria uma expectativa muito positiva para aprovação de reformas e PECs [propostas de emenda à Constituição] que façam a correção de rota que a população está pedindo nas urnas.”
O economista-chefe da Genial Investimentos, José Marcio Camargo, diz que o mercado deve reagir bem em caso de eleição de Flávio, e na direção oposta se houver reeleição de Lula. “Existe uma diferença grande entre o que cada candidato acredita na importância da questão fiscal.”
Em sua visão, é pouco crível que o petista faria um ajuste significativo nas contas. “Na eleição de 2022, ele disse que ia fazer uma frente ampla, fazer todo o ajuste necessário, não fez. Pelo contrário, só aumentou o gasto. Consequentemente, acabou gerando um aumento na relação dívida/PIB, que está próxima de 83%”, afirma.
Já em relação a Flávio, o economista diz que há incertezas, uma vez que o senador nunca exerceu cargo no Executivo, mas os nomes que o assessoram na campanha inspiram confiança. “São nomes que entendem do problema fiscal, então imagino que a gente deve esperar algum tipo de reforma. Quão forte eu não sei, mas minha expectativa é que vão fazer.”
Colaborador da campanha de Romeu Zema (Novo) no primeiro turno, o ex-diretor do Banco Central Luiz Fernando Figueiredo avalia que a percepção de bem-estar das pessoas pesou no resultado do primeiro turno. “A gente fala que o PIB cresceu, mas o que interessa no final é a sensação de bem-estar das pessoas, e ela está muito fragilizada, as pessoas estão muito desanimadas”, afirma.
Ele destaca que 80% das famílias estão endividadas e 60% não conseguem pagar as suas prestações. “Quando se olha nas classes mais baixas, o índice de inflação dessa fatia da população foi muito pior do que os números mostram”, diz. “Os números mostram que a renda cresceu, mas na verdade ela diminuiu.”
Sobre a vantagem de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, Figueiredo diz que o candidato tem sido percebido como menos radical. “O plano de governo dele é bastante razoável”, avalia. Entre as propostas, ele citou um ajuste de 1,5% do PIB nas contas do governo e a reforma administrativa. Para ele, a posição de Flávio de se colocar contra a reeleição também ajudou. “Mas a gente sabe que hoje os maiores anseios estão menos relacionados ao econômico e mais a toda essa questão mais institucional que está acontecendo.”
Fonte: Folha de São Paulo
