Bolsa bate recorde e fecha aos 206 mil pontos com resultado de Flávio; dólar e juros futuros caem

Matheus dos Santos Júlia Galvão

São Paulo

A liderança de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Lula (PT) no primeiro turno das eleições alimentou o apetite por risco no mercado brasileiro nesta segunda-feira (5) e impulsionou os ativos domésticos a marcas históricas. Os juros futuros despencaram, o dólar recuou a R$ 5 e a Bolsa disparou e fechou pela primeira vez na história acima dos 200 mil pontos.

O contrato de juro futuro em um ano caiu de 13,6% para 12,6%, o que sinaliza que o mercado espera uma Selic (taxa básica de juros) um ponto percentual menor do que previa antes do primeiro turno. Atualmente, o índice está em 13,75% ao ano.

A reação refletiu a expectativa de alternância de poder na Presidência da República e de uma condução fiscal mais sólida, na avaliação dos investidores. Esse cenário reduz a percepção de risco e fomenta a euforia entre analistas.

O senador Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na liderança, com 47,03% dos votos válidos ante 45,16% de Lula, atual presidente. Os dois disputarão o segundo turno, marcado para o próximo dia 25. Nunca houve uma virada do segundo colocado na disputa pela Presidência da República no segundo turno.

As reações dos agentes do mercado financeiro desde agosto já revelavam uma preferência pela mudança, com a ideia de que Flávio Bolsonaro poderia ser mais conservador em sua política fiscal. Por isso, essa perspectiva hoje causa euforia, diminuindo a percepção de riscos fiscais dos ativos brasileiros e favorecendo o desempenho do real”, afirma Leonel Oliveira Mattos, analista de inteligência de mercados da StoneX.

A Bolsa fechou o pregão em alta de 7,70%, a 206.911 pontos, no maior patamar da história, em termos reais e nominais. Antes, o recorde nominal (sem considerar a inflação) de fechamento do Ibovespa, índice de referência do mercado acionário brasileiro, era de 198.557 pontos —atingido em abril de 2026 em meio à alta do petróleo.

Segundo levantamento da Elos Ayta, o Ibovespa também quebrou o recorde real. Considerando o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), o recorde de 20 de maio de 2008, de 73.516 pontos, equivale a a 201.263 pontos atuais, abaixo do fechamento desta segunda (5).

A alta da Bolsa neste pregão foi a maior desde março de 2020, quando o índice subiu 9,69% em um único dia. O Ibovespa atingiu 209.605 pontos, em alta de 9,10%, na máxima.

O Vix, índice que mede a volatilidade do Ibovespa, teve uma queda de 27,7% para 23,68 pontos, após chegar a sua máxima histórica na sexta (2), aos 32,77 pontos.

O dólar, por outro lado, encerrou o dia em queda de 4,11%, a R$ 5,001, na maior queda intradiária desde 2018, quando recuou 5,50% em uma única sessão. Na mínima do dia, a moeda americana chegou a R$ 4,952, em queda de 5,06%. O movimento de alta também repercutiu nos juros futuros, que recuaram em bloco. A taxa DI de 2029 cedeu 109 pontos-base, a 12,66%, enquanto a taxa DI de 2028 caiu 79 pontos-base, a 12,72%. As taxas dos DIs refletem as expectativas do mercado para a trajetória futura da Selic e do CDI, referência para a remuneração de investimentos.

Quanto menores forem os juros, menos vantajoso fica o investimento em renda fixa, o que tende a aumentar o fluxo de aportes em ativos mais arriscados. O crédito tende a ficar mais barato, estimulando o consumo e investimentos e reduzindo o peso da dívida sobre as empresas. Com uma projeção menor de custos, aumenta o valor da companhia hoje.

Em 2018, quando Jair Bolsonaro terminou na liderança do primeiro turno, a Bolsa avançou 4,57%, enquanto o dólar fechou em queda de 1,57%, a R$ 3,779. Em 2022, com Lula na liderança do primeiro turno, o Ibovespa avançou 5,54%, ante queda de 4,48% do dólar, que encerrou o dia a R$ 5,171.

Parte dos investidores avalia que uma eventual alternância de poder, com Flávio no lugar de Lula, poderia resultar em uma condução fiscal mais sólida, reduzindo a percepção de risco em relação aos ativos brasileiros.

Com uma trajetória da dívida mais controlada, o governo poderia pagar um prêmio menor para se financiar, o que tende a aliviar a curva de juros. Taxas mais baixas, por sua vez, reduzem o custo do crédito para empresas e podem melhorar as perspectivas para os lucros, favorecendo a Bolsa.

Ações de bancos, petroleiras e varejistas subiram em bloco durante o pregão. Os papéis da Petrobras avançaram mais de 6%, enquanto os do BTG lideraram entre os bancos, com alta de 22%. O Magazine Luiza subiu 24%, uma das maiores valorizações do dia.

Rodrigo Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos, diz que a composição do primeiro turno surpreendeu positivamente o mercado. “Analistas já trabalhavam com uma perspectiva positiva para uma eventual vitória de Flávio, mas não esperavam uma vantagem tão expressiva no primeiro turno. Por isso, a reação apareceu já na abertura, com alta do Ibovespa e valorização do real.”

Entre os bancos, o JPMorgan estima que a expectativa de vitória de Flávio pode levar as ações brasileiras a uma alta de 10% a 11% no curto prazo e o dólar à faixa entre R$ 4,95 e R$ 5, além de provocar o fechamento da curva de juros.

O BTG Pactual estima potencial de alta de 11% a 20% para as ações brasileiras caso Flávio vença. Já o Goldman Sachs é mais cauteloso e avalia que o segundo turno tende a ser polarizado.

O Morgan Stanley afirma que o resultado aproxima o mercado de seu cenário otimista e projeta dólar a R$ 4,50 no primeiro trimestre de 2027 e Ibovespa a 250 mil pontos caso seja apresentado um plano fiscal crível e o cenário global permaneça estável.

O UBS também vê espaço para valorização dos ativos caso o segundo turno confirme o resultado do primeiro e o mercado passe a precificar uma estabilização da dívida em relação ao PIB. O banco projeta dólar entre R$ 4,50 e R$ 4,60 e potencial de alta superior a 30% para a Bolsa nos próximos meses. O desempenho do ex-senador fluminense ocorreu em meio a uma onda de vitórias de candidatos alinhados ao bolsonarismo, com resultados favoráveis nos estados e no Senado que evidenciaram a força do PL e de seus aliados. Nomes da equipe econômica do candidato do PL são bem recebidos na Faria Lima, como a ex-presidente da Caixa Daniella Marques e o ex-ministro de Minas e Energia na gestão de Jair Bolsonaro, Adolfo Sachsida.

Ainda há incerteza sobre a política econômica dos candidatos. Flávio defende um ajuste fiscal sem mexer na Previdência ou na política de valorização do salário mínimo, enquanto o governo Lula propõe reduzir o ritmo de crescimento dos gastos obrigatórios e aprimorar o arcabouço fiscal. Economistas, porém, avaliam que um ajuste duradouro teria de atingir aposentadorias e benefícios sociais.

No governo de Jair Bolsonaro, pai do ex-senador, o teto de gastos foi furado em R$ 795 bilhões ao longo dos quatro anos de mandato. O montante envolveu a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) Kamikaze, que autorizou uma série de benefícios acima do limite constitucional, como o aumento do Auxílio Brasil e a criação de auxílios para caminhoneiros e taxistas, em 2022. O governo Lula prevê um déficit de R$ 67,3 bilhões neste ano, ou 0,5% do PIB (Produto Interno Bruto). Com isso, a dívida bruta do governo geral, que atingiu o maior nível em cinco anos e está em 82,9% do PIB, deve subir ainda mais. Segundo analistas, estabilizar a dívida pública requer um ajuste nas contas de ao menos R$ 250 bilhões nos próximos quatro anos.


Fonte: Folha de São Paulo

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