O mês da escassez: o que une economistas e advogados é que não existe tudo para todo mundo
Tenho um pesadelo recorrente. Envolve o ensino médio, voltar ao ensino médio. A terapia não conseguiu explicar. Eu tenho de estudar para uma prova iminente e não sei nada do conteúdo.
Vale pelo ano todo e eu faltei todas as aulas. Se não passar, não terei o ensino médio e todos os meus diplomas subsequentes serão anulados. “O que foi que você deixou na adolescência, Pedro, que nunca mais recuperou?” provocou a psicóloga.
Eu sei o que deixei no ensino médio: o sonho de cursar direito. Queria ser procurador, lutar por justiça social. Mas pela nota dos primeiros anos da avaliação seriada da UnB sabia que teria de ir para uma particular, ou fazer cursinho. Escolhi virar economista.
Apesar da mediocridade, consegui algum sucesso, mais do que teria no direito, universo mais concorrido, e em boa medida porque a UnB tinha um excelente curso de economia. Hoje posso criticar o MP sem que se perceba meu ressentimento e recalque, que também transborda para juízes, advogados, todos aqueles que não sabem o que é otimização — ou os meus pesadelos.
Há semelhanças nas carreiras. Economistas e juristas lidam com escassez: não existe tudo para todo mundo. Trabalhadores brigam com empresas (direito do trabalho), empresas brigam com governos (tributário), ou os trabalhadores que brigam com governos (previdenciário). Empresas processam empresas, mulheres processam ex-maridos, promotores processam ladrões. Alguém pegou o dinheiro do outro.
Há muitas diferenças. Economistas são rigorosos e agressivos, advogados são cordiais e personalistas. Parecem depender mais de contatos, não se critica gratuitamente alguém de que você pode precisar em uma ação.
Há diferenças de conteúdo. O advogado vê um problema pela lógica individual, é moldado pela parte, tem uma pessoa para defender. O economista por uma lógica agregada, é moldado pela macro, tem um banco para defender.
Economistas são mais treinados para se preocupar com consequências. Com reações, com o dia seguinte, com a ressaca. “A vida não é uma festa” poderia ser perfeitamente lema para a profissão. Um valoriza autores, outro valoriza modelos matemáticos, porque a pretensão científica é fundamental em nossa busca por espaço.
As duas profissões estiveram no centro do poder nas últimas décadas. Natural depois da ditadura e a hiperinflação que a sociedade demandasse direitos e estabilidade. Tivemos presidentes advogados e presidentes economistas. Neste mês de agosto, celebramos ambos. Parabéns aos advogados, aos economistas e aos que conseguem ser mais de um.
Fonte: Estadão