Dívida bruta do Brasil atinge 82,9% do PIB em agosto, maior nível em cinco anos, mostra BC

Nathalia Garcia

Brasília

A dívida bruta do Brasil seguiu em alta e atingiu 82,9% do PIB (Produto Interno Bruto) em agosto, o maior nível em cinco anos. No mês, houve elevação de 0,3 ponto percentual. Os dados foram divulgados pelo Banco Central nesta quarta-feira (30).

Em março de 2021, o indicador estava em 85,1% do PIB, em um momento marcado pela alta dos gastos públicos devido à pandemia de Covid-19.

A dívida bruta —que compreende governo federal, INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e governos estaduais e municipais— é um dos principais indicadores econômicos observados pelos investidores na hora de avaliar a saúde das contas públicas do país.

A comparação é feita em relação ao PIB para mostrar se a dívida do governo é sustentável. A trajetória da dívida bruta é hoje um dos focos de preocupação do mercado financeiro.

De acordo com o BC, a alta mensal pode ser explicada pelo aumento dos juros nominais apropriados (0,8 ponto percentual) e da desvalorização cambial (0,1 ponto). Por outro lado, o efeito da variação negativa do PIB nominal, com redução de 0,5 ponto percentual, impediu um aumento maior do endividamento.

No terceiro mandato do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a dívida bruta subiu mais de 11 pontos percentuais. Em dezembro de 2022, o indicador estava em 71,68% do PIB.

Neste ano, o avanço acumulado do indicador é de 4,2 pontos percentuais. O crescimento do endividamento do país foi influenciado, sobretudo, pelos gastos com juros. Hoje, a taxa básica (Selic) está em dois dígitos, fixada em 13,75% ao ano, e vem tendo redução a conta-gotas.

Cada um ponto percentual de queda da taxa básica, mantida por 12 meses, reduz a dívida bruta em R$ 65,8 bilhões (0,49 ponto percentual do PIB), segundo o BC.

No mais recente relatório de projeções fiscais, divulgado em junho pelo Tesouro Nacional, a equipe econômica projetou que o pico da dívida bruta será de 87,9% do PIB em 2029. Depois disso, o indicador entrará em trajetória de queda rumo a 83,1% do PIB em 2036. As estimativas do mercado financeiro, no entanto, são mais pessimistas e descartam uma estabilização do endividamento nos próximos anos.

A escalada da dívida bruta para o patamar acima de 80% já foi considerada, em estudos do próprio Tesouro no passado, como insustentável para um país como o Brasil.

Em janeiro de 2023, em sua primeira entrevista como secretário do Tesouro, Rogério Ceron (hoje secretário-executivo do Ministério da Fazenda) assumiu compromisso de evitar que o endividamento ultrapassasse o patamar de 80% do PIB. Na ocasião, ele afirmou à Folha que esse cenário de trajetória explosiva da dívida pública não iria acontecer.

Como mostrou a Folha, o tamanho da conta a ser paga ameaça travar o próximo governo. Para conter a expansão do endividamento, serão necessárias medidas duras de redução de despesas ou aumento de receitas, potencialmente nocivas à popularidade do presidente.

Pela metodologia do FMI (Fundo Monetário Internacional), que passou a ser incorporada pelo BC na divulgação de suas estatísticas, a dívida bruta do Brasil foi na direção contrária e caiu de 95,4% do PIB em julho para 94,5% do PIB em agosto. Esse comportamento distinto deveu-se ao resgate líquido dos títulos públicos federais em agosto, o que fez com que o estoque de passivos diminuísse.

Neste conceito, toda a dívida mobiliária do Tesouro Nacional na carteira da autoridade monetária é considerada no cálculo. O BC, por sua vez, desconsidera isso e inclui as operações compromissadas. A dívida bruta no conceito do FMI vai ser, portanto, maior que na metodologia do BC por ter um item a mais.

A dívida líquida, que desconta os ativos do governo, teve aumento de 0,1 ponto percentual no mês e chegou a 69,3% do PIB (saldo de R$ 9,2 trilhões). A cifra renovou o recorde na série histórica Banco Central, iniciada em dezembro de 2001. No acumulado do ano, houve avanço de 4 pontos percentuais.

Ainda segundo dados do BC, o setor público consolidado brasileiro registrou déficit primário de R$ 10 bilhões em agosto. No mesmo mês de 2025, o resultado deficitário foi de R$ 17,3 bilhões. Ou seja, houve uma melhora de 42% na comparação interanual. Esse foi o melhor resultado desde 2021, quando foi registrado um superávit de 16,7 bilhões.

O montante engloba os resultados do governo central (Tesouro Nacional, Banco Central e Previdência Social), governos estaduais e municipais e de empresas estatais (exceto Petrobras e bancos públicos).

O resultado negativo foi puxado pelas contas do governo central, com déficit de R$ 14,7 bilhões. Estados e municípios, por sua vez, tiveram resultados superavitários de R$ 2,7 bilhões. Em agosto, as empresas estatais registraram superávit de R$ 2 bilhões, melhora ligada principalmente às estatais federais.

“Passaram para R$ 1,8 bilhão de superávit primário, com melhora das receitas auferidas pelas empresas estatais neste mês. Algo que não é muito usual na série que a gente vem acompanhando”, afirmou Fernando Rocha, chefe do departamento de Estatísticas do BC, na apresentação dos dados.

No ano, as estatais acumula resultado deficitário de R$ 8 bilhões —valor próximo ao maior rombo da história, registrado em 2024.

De janeiro a agosto, o déficit acumulado é de R$ 88,85 bilhões (0,99% do PIB), o que representa uma alta de 44% em relação ao mesmo período do ano anterior, quando somava R$ 61,79 bilhões (0,74% do PIB).

Os governos estaduais foram os principais responsáveis nessa variação negativa. “Mesmo com as transferências [de recursos da União] crescendo, a arrecadação do ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços] crescendo, a razão para essa piora do resultado na esfera dos governos estaduais é o aumento da despesa bastante superior ao crescimento da sua arrecadação”, disse Rocha.

Os dados do BC mostram ainda que, em 12 meses, o setor público consolidado acumula déficit de R$ 82,1 bilhões, equivalente a 0,62% do PIB. As despesas com juros somaram no mês passado R$ 105,9 bilhões, ante R$ 74,3 bilhões em período equivalente no ano passado. No acumulado em 12 meses até agosto, os juros nominais alcançaram R$ 1,18 trilhão (8,86% do PIB), contra R$ 946,5 bilhões (7,61% do PIB) no mesmo período do ano anterior.


Fonte: Folha de São Paulo

Traduzir »