Crise da Casas Bahia expõe fragilidades do varejo dependente de crédito – Clone

A recuperação judicial da Casas Bahia, protocolada no último domingo, fez mais do que expor a fragilidade de uma das maiores varejistas do País. Reabriu uma discussão antiga sobre um modelo que depende de crédito nas duas pontas: para o consumidor comprar e para a empresa continuar operando. A pressão é maior em redes de bens duráveis, que trabalham com tíquete alto e clientes mais sensíveis aos juros.

No mesmo fim de semana, a Marabraz também pediu proteção contra credores, com cerca de R$ 140 milhões em dívidas, ante R$ 17,3 bilhões sujeitos à recuperação da Casas Bahia. As histórias são diferentes, mas expõem um mesmo segmento pressionado por crédito caro, consumo fraco e necessidade constante de capital.

A pressão aparece dos dois lados do balcão. De um lado, o consumidor precisa de crédito para comprar produtos de maior tíquete, como uma geladeira. Do outro, a varejista também depende de financiamento para sustentar estoques e capital de giro.

Na Casas Bahia, essa dependência já vinha ficando evidente. Em 2024, o atraso na migração do financiamento do crediário para um Fidc prejudicou a oferta de crédito aos clientes. A ideia era usar o fundo para financiar parte dessas vendas a prazo e reduzir a dependência de empréstimos bancários.

O próprio presidente da empresa, Renato Franklin, resumiu o problema naquele ano: “Não existe acesso a crédito para a população que quer consumir”.

Com juros altos e inadimplência maior, financiar o consumidor também fica mais caro e arriscado para a varejista. O crédito ajuda a sustentar as vendas, mas pode corroer a rentabilidade quando sobe o custo para captar recursos ou aumenta o número de clientes que deixam de pagar.

A situação se complica ainda mais quando a percepção de risco chega a fornecedores, bancos e outros financiadores. No caso da Casas Bahia, a companhia informou no pedido de recuperação judicial que transportadoras já recusavam entregas de mercadorias diante de pagamentos atrasados. Enquanto isso, a Marabraz também vinha enfrentando dificuldades para receber mercadorias de fornecedores.

Para Olívia Flôres, presidente da Magno Investimentos, é nesse momento que o problema deixa de ficar restrito às finanças. “Quando o fornecedor começa a perguntar mais sobre o balanço do que sobre o pedido, a crise já deixou a diretoria financeira e chegou à prateleira”, diz.

Mais concorrência com plataformas digitais

O cenário também ficou mais duro porque o consumidor ganhou alternativas. Plataformas digitais ampliaram a comparação de preços, produtos e condições de pagamento, enquanto redes tradicionais continuam carregando custos de lojas físicas, mão de obra, logística e crédito.

A pressão é maior entre consumidores de renda mais baixa, público relevante para redes de móveis e eletrodomésticos. Com o orçamento mais apertado, a troca de uma televisão, de um sofá ou de uma geladeira pode esperar. O sócio-diretor da Gouvêa Inteligência, Eduardo Yamashita, chama atenção para a distância entre os indicadores de renda e o desempenho das lojas. “Apesar de os dados do IBGE de emprego e renda mostrarem uma situação muito boa para o trabalhador, o dinheiro não está chegando nas lojas”, afirma. Segundo ele, móveis, material de construção e eletroeletrônicos estão entre as categorias com pior desempenho recente.

O impacto, porém, não é uniforme. Negócios menos dependentes de financiamento, com marcas fortes ou atuação em nichos específicos, podem atravessar melhor o período.

O caso da Casas Bahia é mais extremo, mas ajuda a mostrar onde estão as maiores fragilidades. Quanto maior a dependência de crédito, do consumidor de menor renda e de capital de giro, menor a margem para atravessar um período prolongado de juros altos e consumo fraco.

Magalu e plataformas digitais podem abocanhar espaço deixado pela Casas Bahia

O encolhimento da Casas Bahia pode redesenhar parte da disputa no varejo de bens duráveis. Com o fechamento previsto de 298 lojas, menor investimento e foco nas operações mais rentáveis, a companhia abre espaço para concorrentes avançarem sobre vendas, clientes e regiões em que sua presença será reduzida.

O Magazine Luiza aparece como um dos candidatos naturais a capturar parte dessa demanda. Segundo levantamento do BTG Pactual, mais de 90% das lojas que a Casas Bahia pretende fechar têm uma unidade do Magalu nas proximidades. As duas redes também disputam clientes em categorias semelhantes, principalmente eletrodomésticos, eletrônicos e móveis.

A possibilidade de o Magalu capturar parte dessa participação ganha força justamente quando o canal físico já vinha avançando dentro da companhia. Em 2025, as vendas das lojas cresceram 5,9%, enquanto o e-commerce recuou 3,9%. No primeiro trimestre deste ano, a diferença aumentou: o físico avançou 6,9% e o online caiu 11%.

Redes tradicionais continuam sendo o principal canal de venda do setor

A disputa envolve fatias relevantes de um mercado já concentrado entre grandes redes. Segundo a Euromonitor, a Casas Bahia respondeu por 26% das vendas dos varejistas especializados em eletrodomésticos e eletrônicos no Brasil no ano passado, enquanto o Magazine Luiza ficou com 20%. Lojas Cem, Gazin e Fast Shop apareceram em seguida, com participações entre 4% e 8%.

A pressão, porém, vem cada vez mais também do digital. Considerando o e-commerce brasileiro como um todo, e não apenas bens duráveis, o Mercado Livre e a Amazon têm participações estimadas em 35% e 20%, respectivamente, em 2025.

O mercado de varejistas especializados em eletrodomésticos e eletrônicos movimentou R$ 75,1 bilhões em 2025, alta de 5% no ano. Contudo, apesar do avanço do e-commerce, a Euromonitor avalia que as redes tradicionais continuam sendo o principal canal de venda da categoria, apoiadas pela presença física, oferta de crédito e possibilidade de demonstração dos produtos. O analista da Manchester Investimentos, Felipe Cima, observa que a expansão das plataformas digitais nem sempre ocorre com foco no retorno imediato. “Não é necessariamente uma competição por rentabilidade imediata. Existe também uma disputa por participação de mercado e escala”, afirma.


Fonte: Estadão

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