Casas Bahia: o que levou a varejista à recuperação judicial?
Fatores internos, como despesa operacional elevada e estrutura de preços de produtos inadequada para competir com outras redes concorrentes do comércio online, foram os que mais pesaram para levar a quase septuagenária Casas Bahia a pedir recuperação judicial, segundo avaliação de consultores especializados em varejo.
PUBLICIDADE
No entanto, o ambiente macroeconômico desfavorável, marcado por juros elevados e consumidor muito endividado, que é o pano de fundo para todos os varejistas, agravou a situação dos mais fragilizados. E a Casas Bahia está nesse grupo.
“A dívida pegou a Casas Bahia porque ela não arrumou a casa”, afirma o consultor de varejo Eugênio Foganholo, sócio da Mixxer Desenvolvimento Empresarial. No pedido de recuperação judicial entregue à Justiça paulista no último domingo, 16, a varejista apontou dívidas de R$ 17,322 bilhões e um prejuízo líquido contábil de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre deste ano.
O consultor lembra que normalmente gestores das empresas apontam o juro alto como o fator fundamental para a entrada com o pedido de recuperação judicial. No entanto, o quadro é mais complexo. “E outras empresas, como é que elas fazem para se manter vivas?”, questiona o especialista. A resposta estaria na gestão adequada do negócio.
Marcos Gouvêa de Souza, diretor-geral e fundador da Gouvêa Ecosystem, concorda com Foganholo. “Tem um ambiente um pouco mais complexo, que é de caráter geral, e aqueles que estavam mais fragilizados estão caindo antes”, afirma o consultor.
Além do juro elevado, cuja taxa básica está hoje em 14% ao ano, Gouvêa aponta o endividamento elevado dos brasileiros e o efeito das apostas esportivas online, as bets, como fatores macroeconômicos que têm drenado o volume de vendas do comércio varejista, além da competição com a economia informal.
Estudo feito por Gouvêa, com base nos dados de vendas do Instituto para o Desenvolvimento do Varejo (IDV), que engloba o varejo formal, mostra que comércio registra 18 meses consecutivos de queda real nas vendas.
Apesar do cenário complexo, questões peculiares da Casas Bahia fizeram a empresa migrar da recuperação extrajudicial homologada dois anos atrás (em junho de 2024), com uma dívida bem menor de R$ 4,1 bilhões, para a recuperação judicial agora, com uma dívida quatro vezes maior.
A estrutura operacional pesada de uma empresa tradicional, baseada no varejo físico, é um dos pontos apontados pelos consultores que fizeram aumentar a dívida. Na última sexta-feira, 14, a empresa anunciou o fechamento 298 lojas físicas e redução no quadro de funcionários.
Outra fragilidade da companhia é a estrutura de preço dos produtos. O preço ficou mais fácil de ser comparado com o avanço do comércio online. “Praticamente 80% do que vende uma Casas Bahia ou qualquer outra loja de eletromóveis são produtos perfeitamente comparáveis”, afirma Foganholo.
Essa comoditização das mercadorias, facilitada pelo avanço do comércio online, aperta ainda mais as margens de comercialização em um segmento no qual elas já são bem estreitas.
Marketplaces acirraram a concorrência
Até que a Casas Bahia tentou avançar no comércio eletrônico. No final do ano passado, a varejista fechou parceria com o Mercado Livre e passou a ter uma loja oficial dentro do marketplace.
Mesmo com o pedido de recuperação judicial, o Mercado Livre informa, por meio de nota, que a parceria “segue ativa e operando normalmente na plataforma”.
Apesar dessa iniciativa, Gouvêa diz que ela não foi suficiente. Ele ressalta que esse movimento da Casas Bahia é muito diferente do que foi feito pelo Magalu, que criou o próprio marketplace.
O grande concorrente da Casas Bahia hoje é o marketplace”, diz Foganholo. Ele argumenta que, com os marketplaces, a concorrência ficou muito mais espraiada. Isso deu chance para, muitas vezes, empresas pequenas e com preços mais competitivos em determinado produto abocanharem vendas, antes concentradas nas grandes redes varejistas.
Saídas para resolver o problema
De toda forma, a migração de um regime de recuperação extrajudicial para recuperação judicial torna mais difícil a vida dos credores e blinda a companhia.
“A recuperação judicial é um calote controlado e, obviamente, não é 100% de calote, mas é uma espécie de um calote com deságio extraordinário”, observa o sócio da Mixxer. Isso deixa a empresa, de certa forma, protegida, observa. Em relação às saídas para a companhia virar o jogo, Gouvêa diz que o ambiente macro não vai contribuir para melhorar a situação da empresa. “A Casas Bahia terá de arranjar uma solução via fusão, aquisição, empréstimo ou uma forte reestruturação interna.”
Fonte: Estadão
