País tem plano de IA com investimentos de R$ 23 bilhões

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O governo federal mantém o que chama de Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que prevê investimentos de R$ 23 bilhões entre 2024 e 2028. Coordenado pelo Comitê Interministerial para a Transformação Digital (CIT Digital), o plano combina ações de curto prazo com iniciativas de médio e longo prazo.

No horizonte imediato, o plano prioriza projetos capazes de gerar resultados concretos em até 12 meses. Na saúde, as iniciativas incluem a automatização de prontuários de teleconsultas do SUS, o uso de IA para apoiar a compra de medicamentos, o aprimoramento de diagnósticos de doenças e o desenvolvimento de ferramentas para a detecção precoce de enfermidades neurodegenerativas.

Na educação, o plano prevê sistemas inteligentes para combater a evasão escolar, monitorar a qualidade da alimentação oferecida nas escolas e oferecer tutoria personalizada em matemática. Também estão previstas soluções para modernizar a gestão pública, como chatbots para atendimento de brasileiros no exterior e ferramentas de apoio à Receita Federal.

Já as ações estruturantes, que concentram 98% dos recursos previstos, têm como objetivo fortalecer a soberania tecnológica do país e estão distribuídas em cinco eixos: ampliação da infraestrutura computacional e da rede nacional de dados; formação e capacitação de profissionais; adoção de inteligência artificial no serviço público; incentivo à inovação empresarial e ao ecossistema de startups; e desenvolvimento de mecanismos de regulação e governança para o uso ético da tecnologia.

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O PBIA também estabelece metas para os próximos três a cinco anos, incluindo a expansão da capacidade computacional nacional, a formação de milhares de profissionais especializados e a consolidação do Brasil entre os cinco países com maior capacidade computacional para IA, além da ampliação do uso da tecnologia pelos órgãos federais.

Procurado, o MCTIC informou que, até junho de 2026, R$ 7,8 bilhões haviam sido executados, o que corresponde a 34% dos R$ 23 bilhões previstos para o período 2024–2028.

“A execução acompanha o desenho do plano: o eixo de inovação empresarial responde por 60% do orçamento total previsto e concentra a maior parte do valor já executado, por operar instrumentos consolidados de crédito e subvenção da Finep e do BNDES. Os demais eixos tiveram, em 2024 e 2025, sua fase de estruturação e agora entram na fase de contratação: o FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) aprovou cerca de R$ 1 bilhão para ações dos cinco eixos em 2026, e há R$ 7,1 bilhões programados no âmbito do fundo para os próximos anos”, informou o ministério.

Entre os principais marcos do período estão a quadruplicação da capacidade do supercomputador Santos Dumont, que atingiu 18,85 petaflops, o apoio a 547 projetos de IA aplicada em empresas por meio da Finep e do BNDES, e a realização da primeira Olimpíada Nacional de IA, que reuniu 716 mil estudantes inscritos.

Para a próxima fase, o foco do ministério será na soberania tecnológica, com a estruturação da compra de um novo supercomputador nacional e a contratação de projetos aprovados em 2026, como o modelo de linguagem em português baseado em dados locais e o Instituto Nacional de IA. O cronograma prevê ainda o lançamento de editais de bolsas e retenção de talentos em dezembro, a ampliação dos CENAPADs (Centros Nacionais de Processamento de Alto Desempenho) em 2027 e a continuidade do monitoramento público do plano.

Piauí criou projeto SoberanIA, em 2024

Um projeto conhecido como SoberanIA foi criado em 2024 no Piauí, a partir da criação da Secretaria Estadual de Inteligência Artificial. O projeto foi concebido com o objetivo de realizar uma ação transversal de tecnologia dentro do governo, visando a transformação digital como uma ferramenta de transformação social.

De um lado, o intuito é oferecer treinamentos em IA para servidores públicos. Do outro, é permitir interações da população com os serviços estaduais por meio da IA.

Embora o ecossistema se chame SoberanIA, os modelos de linguagem (LLMs) desenvolvidos com base em soluções de código aberto são denominados Soberano. Eles foram treinados em território nacional, utilizando servidores e dados brasileiros.

O Soberano é voltado para ser usado no setor público. Não tem a intenção de ser o ChatGPT”, afirma André Macedo Santana, secretário de Inteligência Artificial, Economia Digital, Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado do Piauí (SIA),

O projeto utiliza um vasto inventário de cerca de 800 bases de dados públicas (saúde, segurança, educação) e sistemas de processos eletrônicos para treinar a IA. Também incorpora dados culturais, como livros de autores piauienses e videoaulas da rede estadual.

Santana diz que o intuito da IA do Estado é ser especialista no contexto nacional e regional, entendendo gírias, sotaques e a cultura local para facilitar a comunicação com a população.

Entre as aplicações, Santana cita que já é possível registrar um boletim de ocorrência via WhatsApp por mensagens de voz ou texto, graças ao projeto Soberania. Entre as diversas iniciativas do projeto, o secretário estima que o investimento já realizado supere a cifra de R$ 40 milhões. “A meta é tornar o Soberania a base do governo conversacional”, afirma Santana.

Para realizar isso, o secretário conta que busca o apoio do MCTIC para comprar placas de processamento gráfico para as demandas de IA. Além disso, a secretaria anunciou no fim do ano passado um projeto de instalar um data center no litoral do Estado em parceria com a Scala Data Center. A ideia é manter os dados processados localmente. Segundo Santana, ainda faltam detalhes técnicos para que isso ocorra. Procurada, a empresa não se pronunciou.

Setor energético brasileiro tem grande potencial na era da IA

A energia renovável brasileira, especialmente a eólica, já é vista por especialistas como um dos grandes destaques mundiais para alimentar os data centers especializados em processar cargas de trabalho de IA.

Segundo o relatório Latin America Data Center Report 2025, da JLL, o País tem 48% da capacidade de data centers em operação na América Latina e também tem 71% da capacidade em fase de construção na região.

Esses espaços precisam de tanta energia quanto uma cidade de pequeno ou médio porte, e isso pode impactar na conta de luz da população se não houver planejamento prévio e uso de fontes renováveis e métodos eficientes de resfriamento dos servidores.

Por isso, grandes empresas já apostam no Brasil para abrigar data centers, como é o caso do TikTok, que estrutura um projeto de R$ 200 bilhões no Porto Pecém junto com a Omnia Data Centers, empresa criada pelo fundo Pátria Investimentos.

No interior de SP, na cidade de Sumaré, a Ascenty prepara um data center que será dedicado ao processamento de demandas de IA. O cliente, porém, não foi revelado — embora as possibilidades de empresas com capital e necessidade de tanto processamento sejam poucas no mundo, como Meta, Microsoft, Google, OpenAI e Anthropic.

No começo do ano, o setor teve as expectativas frustradas pela perda de validade da medida provisória do Redata, que traria benefícios para empresas que instalassem data centers no Brasil. A MP acabou não sendo votada pelo Congresso e segue sem previsão de vigência. O Retada previa a suspensão de tributos federais na compra de equipamentos, estímulo à economia digital e redução de custos para instalação de data centers.

Steibel, do ITS-Rio, lembra que, embora o Brasil tenha potencial para o mercado de data centers, ainda é pequeno globalmente nessa área. “O Brasil tem 1% dos data centers do mundo. Por mais que cresçamos muito, não teremos a mesma capacidade de processamento de dados da Europa, EUA ou China. Nosso potencial é verídico, mas precisa ser colocado em escala. Para nós, é ótimo (ter energia renovável) porque poderemos usar energia verde para o processamento de dados que precisarmos”, diz Steibel.


Fonte: Estadão

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