Soberania em IA: o que o Brasil precisa fazer para reduzir a dependência de outros países

A soberania brasileira na era da inteligência artificial (IA) é um assunto complexo devido às suas diferentes camadas. À primeira vista, pode-se pensar que bastaria ter uma IA falando português com servidores funcionando em território nacional, mas toda a tecnologia, do hardware ao software, vem do exterior.

A arquitetura Transformer, o T do ChatGPT, foi desenvolvida pelo Google e é a base das plataformas de IA generativa conhecidas hoje. Trata-se da tecnologia que permite à IA ler todo o contexto de um texto ao mesmo tempo, entendendo o significado exato de cada palavra.

Mas é no hardware que o Brasil, assim como inúmeros países, está mais dependente de outros mercados. O País está fora da cadeia de design e produção de chips de memória usados para o processamento de demandas de inteligência artificial. Ou seja, para que tenha autonomia nas aplicações de IA, é necessário comprar os componentes vindos de fora.

A cadeia de produção de chips envolve diversas etapas e empresas especializadas. A taiwanesa TSMC é responsável pela fabricação desses componentes, enquanto a holandesa ASML fornece as máquinas de litografia essenciais para produzi-los. Antes da fabricação, porém, empresas americanas como Nvidia e AMD desenvolvem a arquitetura e o design de processadores e chips de memória. Esse trabalho, no entanto, depende de programas especializados para realizar o trabalho de design de chips fornecidos pelas americanas Cadence e Synopsys, indispensáveis para o desenvolvimento dos chips.

Tornar o Brasil uma referência na fabricação de semicondutores, por exemplo, não dependeria apenas do investimento de centenas de bilhões de dólares, mas também do fator tempo para refinamento de processos. Taiwan, que é a referência global nesse mercado, investe na fabricação de chips desde os anos 70 e seus esforços resultaram na criação da TSMC em 1987. Ou seja, foram mais de 50 anos de investimentos públicos e privados para que o mercado se tornasse o polo mundial da manufatura de chips.

Diante desse cenário, as aplicações locais da IA, segundo especialistas, são uma forma de soberania que pode ser mantida pelo País. Seja por meio da criação de modelos de linguagem (LLMs) que sejam adaptados ao português e suas regionalidades, ou com a aplicação em mercados nos quais o País é forte, como no setor financeiro e no agronegócio.

Para Carlos Rafael Neves, professor de ciência de dados e negócios da ESPM, a missão de trazer soberania total ao Brasil na era da IA é bastante difícil. Por isso, o melhor a se fazer é criar aplicações específicas.

“Na área de criação de aplicações comerciais, o Brasil tem milhares de excelentes exemplos de ferramentas e sistemas criados com base em soluções ou modelos de IA”, diz Neves. Mas esse último quesito não serve, necessariamente, como termômetro de soberania em IA, porque ele depende de absolutamente todos os quesitos anteriores. “Então, apesar de o Brasil estar produzindo dentro de casa muitas soluções de qualidade com IA, ele só está fazendo isso graças a tecnologias estrangeiras.”

O professor diz ainda que até existem equipamentos capazes de viabilizar a criação de modelos de IA avançados, mas não o suficiente para competir com soluções de outros países, como Estados Unidos e China.

Na capacidade de processamento, o Brasil já conta com alguns data centers e supercomputadores bastante poderosos, como o supercomputador Santos Dumont, que conta com hardware de ponta (apesar de ser hardware importado, não fabricado no país) e é capaz de processar 20 quatrilhões de operações por segundo (20 Petaflop/s). Isso seria o suficiente para criar ou treinar modelos avançados de IA. Ainda assim, isso é um caso isolado, e há bastante carência por mais data centers de grande capacidade”, afirma.

Na visão de Fabro Steibel, diretor-executivo do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS-Rio), a soberania em IA não deve ser vista como uma independência total, mas como resiliência. Para ele, ser soberano significa ter a capacidade de continuar funcionando mesmo diante de interrupções externas, comparando a situação à indústria aeronáutica brasileira, que produz aviões, mas depende de motores importados. “Em um cenário futuro, em que a IA se torne uma commodity, com todos os modelos oferecendo coisas parecidas, os modelos open source que podem ser instalados e usados aqui serão tão bons quanto os que são de fora. Os modelos de fronteira podem ter restrições e circular apenas entre os amigos, como aconteceu com a Anthropic, que não ofereceu, por um tempo, um de seus modelos para quem não fosse americano”, afirma Steibel.


Fonte: Estadão

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