Problemas de governança e situação fiscal estão paralisando o País, diz Mendonça de Barros
Ex-secretário de Política Econômica e sócio-fundador da consultoria MB Associados, José Roberto Mendonça de Barros enxerga duas agendas prioritárias para o Brasil a partir do ano que vem, quando se inicia um novo governo: endereçar a questão fiscal e promover uma melhora da governança pública e privada do País.
“Nós achamos que (melhorar a governança) é tão relevante quanto o ajuste fiscal”, afirma. “Esse é o resultado de não crescer. E, quando não cresce — eu já usei a expressão mais de uma vez —, vira um jogo de roubar monte. E, para roubar o monte, muitas vezes aparecem os profissionais de roubar o monte. Estão aí os casos que vão se sucedendo.”
Mendonça de Barros vê um cenário de desaceleração para a economia brasileira. Em 2027, ele projeta que o Produto Interno Bruto (PIB) deve crescer apenas 1%. “O ano que vem será dificílimo”, afirma. “Baixo crescimento, pressão inflacionária, taxa de juros muito elevada.” Está virando essa combinação de jabutis, lobbies setoriais, estratégias de quase expropriação de dinheiro público dos programas sociais, como o INSS. Isso está se tornando, junto com a questão fiscal, paralisante”, diz.
A seguir, trechos da entrevista concedida ao Estadão.
Qual é o cenário que sr. tem para o fim deste ano e para 2027?
O cenário econômico do Brasil e do mundo e as implicações para o seu bolso, de segunda a sexta.
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Nós estamos vendo — ao contrário de vários colegas — que a economia neste segundo semestre vai desacelerar mais rapidamente do que se projetava. Há uns dois, três meses, muito por causa da política fiscal, quando começou a ficar claro que havia um modo reeleição ligado, a maior parte dos analistas aumentou a expectativa de PIB para este ano. Todo mundo estava abaixo de 2% e passou para cima de 2%. O mais comum é 2,2%, e o Fundo Monetário Internacional, nessa última revisão, foi para 2,4%. Nós tínhamos 1,7%, 1,8% e mantivemos. Não aumentamos porque a nossa hipótese — que continua a ser verdadeira — é que a dureza da política monetária e as suas consequências dominariam a expansão fiscal e dos programas de crédito.
O que é possível dizer do impacto da política monetária?
A política de juros está sendo muito ativa na direção de machucar as empresas. O canal da política monetária sobre a pessoa jurídica está muito forte. Como sempre, nessas horas, tem os que estão alavancados; os que estão com um balanço relativamente fraco na estrutura de capital, mesmo que não estejam alavancados; ou os que foram pegos, às vezes, no fim de um ciclo de investimentos ou de investimento em marketing. Enfim, qualquer um que esteja com uma relação entre capital próprio e capital de terceiros relativamente baixa, a simples rolagem das dívidas a essas taxas de juros elevadas começa a falar mais alto. E há segmentos que já vinham mais enfraquecidos por uma dinâmica própria. O maior exemplo disso, para mim, é o comércio.
Não são todas as empresas que estão em uma situação difícil, mas o comércio está reduzindo a atividade. Isso começa a levar muitas companhias para a recuperação judicial e para o que, hoje, está mais na moda do que no passado, que é a recuperação extrajudicial. Todas essas coisas acabam sempre levando a alguma redução de pessoal e, evidentemente, isso pesa sobre a atividade.
E o impacto dos juros altos para a pessoa física?
Embora os dados mostrem uma expansão do déficit público relativamente grande nesses programas de gasto direto ou de crédito — e são muitos que estão andando —, nós estamos vendo, especialmente entre as famílias de renda mais baixa, um aperto financeiro muito grande.
Entra em jogo também o fenômeno das bets. Estamos ainda acumulando dados; muitas empresas estão fazendo pesquisa por conta própria e todas mostram que tem uma expansão desse segmento. Especialmente nos níveis de renda mais baixa, há muita gente que joga, às vezes, para buscar ganhar uma bolada e pagar as dívidas. E, por conta disso, se olhar as vendas do comércio, tem muitas vezes uma redução no volume comprado, o que coloca os supermercados numa situação difícil. A soma dessas duas coisas evitou não só que a economia fosse para a faixa de 2%, como, na margem, ela segue enfraquecendo.
Os dados básicos de atividade estão todos fracos. As vendas do comércio, os serviços e o IBC-Br estão mostrando a mesma coisa. Há uma expansão notável do petróleo, tanto em preço quanto em quantidade, porque nós estamos aumentando a produção de petróleo, mas a indústria, em geral, está muito fraca. E a gente acha que o segundo semestre vai nessa direção. O primeiro trimestre foi melhor, o segundo trimestre foi mais lento — talvez seja 0,4% (de crescimento) — e vai manter esse pique, de modo que, para nós, é algo como 1,7%, 1,8%, mas desacelerando.
Qual é o cenário da economia para o ano que vem?
Nós estamos projetando só 1% (de crescimento do PIB) para o ano que vem. É a continuidade dessa tendência. E temos de adicionar mais algumas coisas. A primeira é que, mesmo que a Selic caia duas vezes 0,25 (ponto porcentual), a gente terminaria o ano com 13,75%. É uma taxa gigantesca. E é o melhor que se consegue ver. Muita gente mais pessimista vê só uma queda. Mas, em qualquer circunstância, com uma ou duas quedas, vai cair pouco. Como a inflação está caindo um pouquinho também em relação ao que se esperava antes, o efeito do juro sobre a atividade vai continuar muito duro. Vai ser muito difícil.
Não se sabe, evidentemente, qual é o tamanho, mas 100% dos meteorologistas nos preparam para um El Niño poderoso. Serão poucas regiões com o clima normal. Podemos nos preparar para, eventualmente, alguma perda de safra. E também não temos as avaliações muito detalhadas, mas há certo resultado de avaliação de que os efeitos desses programas parafiscais sobre as famílias e a atividade estão sendo relativamente modestos. Não é mais o que era antes. A resposta está menor. A gente tem firmemente a percepção de que a política monetária vai jogar mais peso para baixo do que a política fiscal vai jogar peso para cima.
O que esperar da inflação?
A inflação vai ser um pouco mais baixa do que se projetava meses atrás, mas nós ainda estamos na faixa um pouco acima de 5%, que é alta. E é por isso que o Banco Central vai se mover relativamente pouco. No ano que vem, deve ser menor, porque a atividade também será menor.
Já o câmbio é sempre difícil de prever, mas prever o câmbio em ano de eleição é particularmente difícil. Mas está todo mundo nessa faixa dos R$ 5,15, R$ 5,20. Provavelmente, a gente não vai ter um esticão muito significativo no câmbio, até porque as pesquisas, os analistas e, portanto, os empresários e os executivos estão já, de certa forma, contando com o cenário de reeleição, o que põe alguma pressão no câmbio, mas não me parece que vá ser uma razão para fuga acelerada de capital nem para uma pressão muito grande no câmbio. O Brasil está relativamente bem na foto da balança comercial.
As novas tarifas do Trump devem provocar algum impacto adicional?
No caso do tarifaço, do ponto de vista macro, não muda muito. O efeito macro é pouco, é pequeno. Vai continuar com a consequência básica de reduzir o comércio entre Brasil e Estados Unidos nas duas pontas, o que é uma perda para o Brasil, mas também é uma perda para os Estados Unidos. É um negócio tão sem propósito.
A participação dos EUA chegou a menos de 10% no comércio com o Brasil…
E eu acho que vai consolidar isso. Agora, do ponto de vista micro, para alguns segmentos, como os de calçados, vestuário, têxtil, indústria moveleira e coisas ligadas a material de construção habitacional, são setores que têm baixa competitividade, vão ter mais uma rodada de ficar mais machucados e vão contar com a ajuda do governo para fazer algum capital de giro. Eles não têm condição de mudar (o mercado exportador). Quem tinha de mudar de mercado já iniciou esse processo.
O câmbio deve se manter comportado mesmo com a eleição?
Não acho que vai ter um estouro do câmbio. Tem um cenário de reeleição, uma enorme apreensão e um bocado de desânimo sobre o que pode acontecer. Mas, enfim, o cenário do segundo semestre e do ano que vem é claramente de desaceleração da atividade, com insolvências em níveis relativamente elevados, uma inflação que vai ceder um pouquinho, mas ainda está forte, e uma taxa de investimento que não tem expressão. É inexpressiva como vem vindo, diga-se de passagem. E ninguém vai começar nada agora. Tem de esperar realmente ver o que vai acontecer com a eleição, quem vai ser eleito.
Há uma grande preocupação com a situação das contas públicas. Como o sr. enxerga o ajuste fiscal?
A expectativa é muito ruim para a situação fiscal do ano que vem. Até o governo reconhece isso. Tem alguns na área do Ministério da Fazenda, às vezes, no Palácio (do Planalto), que tentam dizer que houve um ajuste grande. Na verdade, tem algum esforço, mas, depois de terem aumentado o gasto público de uma forma fenomenal, em 2023, com a PEC da Transição. E o indicador maior, como todo mundo sabe, é uma pressão grande na rolagem da dívida pública. Há uma situação que hoje está muito preocupante e que não vejo como aliviar para o ano que vem, que é o fato de o mercado de títulos longos da dívida pública estar relativamente disfuncional. A demanda está baixa, e as taxas pedidas estão muito elevadas. O Tesouro faz o melhor possível, diminui os lotes, mas a estrutura a termo da taxa de juros longa, a parte longa, está em 8% (de juro real). É muito juro.
O que isso indica?
Isso projeta para o ano que vem uma problemática fiscal bem complicada. E o que vai definir o cenário de 2027, além de saber quem é o presidente, claramente são duas coisas. Uma é como será tratada a questão fiscal. Será uma coisa leve ou sem achar que isso é muito importante? Eu acho que a gastança não se repete em 2027. O governo sabe até das limitações que tem. Agora, qual é a estrutura, a consistência da programação fiscal? Nós chegamos num ponto em que a única coisa que não se discute na campanha — e não é só no governo — é o programa de governo. Fica escondido. Sempre tem dois ou três heróis ou heroínas que têm de fazer um trololó de que está tudo bem. Mas, na verdade, é só em novembro e dezembro que a gente vai saber qual é o programa de quem quer que seja eleito. E isso é absolutamente chave.
Também vemos, como um segundo ponto para se poder fazer um cenário para o ano que vem, a questão da governança diante dessa deterioração fenomenal das condições de governança pública e privada do País nos últimos anos. Nós achamos que isso é tão relevante quanto o ajuste fiscal.
E como chegamos até essa situação?
É o resultado de não crescer. E, quando não cresce — eu já usei a expressão mais de uma vez —, vira um jogo de roubar monte. E, para roubar o monte, muitas vezes aparecem os profissionais de roubar o monte. Estão aí os casos que vão se sucedendo. Isso é uma esterilização gigantesca de poupança. É um desgoverno. E a governança privada também, que não se limita ao crime organizado, às máfias. É um comportamento muitas vezes predatório, generalizado. Estão acontecendo coisas estranhíssimas. Há uma governança esquisita acontecendo em muitos órgãos públicos, em órgãos reguladores e, assim, sucessivamente. Isso é um peso também para o ano que vem, para como nós vamos avançar no resto do ano. Nós sabemos que todas as histórias que estão no meio do caminho não vão parar onde estão.
Tem gente que chama mais genericamente de instituições, que é a mesma coisa, mas eu estou chamando de governança pública e privada. E é importante ter presente: é a governança privada também. Não quer dizer que isso seja objeto de política do governo diretamente, mas tem de ser objeto de análises sérias do sistema, que está em cima disso. Está virando essa combinação de jabutis, lobbies setoriais, estratégias de quase expropriação de dinheiro público dos programas sociais, como o INSS. Isso está se tornando, junto com a questão fiscal, paralisante. Eu não sei quanto o novo governo vai ter de percepção sobre isso; certamente vai fazer muito pouco, eu acho. É mais fácil que prometam um ajuste fiscal do que entrar muito a fundo nessa seara, até porque o Congresso virou uma selva de ninguém, sujeito a todos os lobbies.
E os personagens são sempre os mesmos…
É uma coisa muito impressionante. Eu acho que está chegando a um ponto que, na percepção de começo de mais um mandato, isso tem de ser colocado e tocado na partida. É o enforcement da regulação, o enforcement da lei. É exaustivo.
Pensando no Congresso é difícil também imaginar que vai mudar…
Não vai mudar. E é lamentável. Ele agasalha todas as coisas menos sóbrias, vamos dizer assim, para dizer de forma educada, com a maior cara dura. Isso coloca um peso grande adicional, além da questão fiscal.
É possível manter o arcabouço fiscal?
Tem de começar realmente a refazer o arcabouço fiscal. A regra fiscal vai ter de ser repensada. Há várias sugestões, desde retomar o teto de gastos, mas, enfim, o fato é que esse arcabouço fez água definitivamente. E, mais do que isso, o Congresso já aprendeu como é que faz. Agora, a moda é colocar para fora do arcabouço todos os tipos de despesa. E a observação muito simples é o quanto está aumentando a dívida pública sobre o PIB. Esse é o fim da história. Aconteça o que acontecer, com qualquer tipo de arcabouço, o final da história, não é se está dentro ou fora do arcabouço, mas quanto teve de aumentar a dívida pública para agasalhar o déficit remanescente mais a rolagem da dívida. O ano que vem será dificílimo. Baixo crescimento, pressão inflacionária, taxa de juros muito elevada e uma avaliação, na média, de que a eficácia dos programas sociais é cada vez menor por muitas razões. É uma avaliação de que a eficácia dos programas sociais é cada vez menor. Eu leio, inclusive no jornal, que, no próprio Palácio do Planalto, à boca pequena, tem muita gente avaliando isso. E por quê? Porque o fiscal está exposto, a governança está exposta e, ao mesmo tempo, nós estamos virando o ano com um reaparecimento, com uma força de quase unanimidade, de que o País não tem crescimento de produtividade. Um País que não tem produtividade não cresce; quando não cresce, vira um jogo de rouba-monte; e nós estamos indo cada vez mais para a selvageria, do ponto de vista das coisas que têm sido feitas por aí.
Fonte: Estadão
