Tarifaço: Lula quer segurar medidas de reciprocidade até as eleições para não dar palanque a Flávio
BRASÍLIA – O governo Lula não vai adotar agora medidas comerciais de reciprocidade contra os Estados Unidos, apesar do anúncio do tarifaço de 25% sobre os produtos brasileiros. O processo deve sair do papel apenas depois das eleições porque, além de exigir consultas a diversos setores econômicos, não pode servir, na visão do governo, para dar palanque ao senador Flávio Bolsonaro (PL), principal desafiante do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O Palácio do Planalto está convencido de que o presidente dos EUA, Donald Trump, não quer negociar mais nada com o Brasil até as eleições de outubro. Na avaliação de auxiliares de Lula ouvidos pela reportagem, a Casa Branca espera que o presidente reaja de forma intempestiva e atabalhoada para acusar a gestão do PT de radicalismo. E é justamente esse discurso que o Planalto não dará a Trump.
Em conversas reservadas, ministros dizem não ter dúvidas de que a disputa eleitoral é o pano de fundo do tarifaço. Diante desse cenário, os Estados Unidos criaram uma situação em que qualquer concessão para o governo brasileiro, neste momento, será interpretada como uma vitória para Lula. Por isso, no diagnóstico do Planalto, Trump não vai querer negociar nada com o Brasil até as eleições.
Lula não tem dúvidas de que a mensagem postada nas redes sociais pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, logo após o anúncio do tarifaço sobre produtos brasileiros, na semana passada, foi uma tentativa de tirar a crise do colo de Flávio.
Em mensagem publicada na madrugada do último dia 16, nas redes sociais, Rubio disse que Lula não agiu de boa-fé durante as negociações com os EUA e “priorizou seu próprio ego em detrimento de um acordo que vise o bem-estar do povo brasileiro”.
Nesta segunda-feira, 20, ao participar da convenção nacional do PDT, Lula rebateu: “Se o secretário de Estado americano Marco Rubio quiser vir apoiar o meu adversário, que venha, que monte um comitê, porque a gente vai derrotar todos em nome da defesa da democracia desse País”. Pesquisas em poder do Planalto revelaram, porém, que a associação de Flávio com as medidas de Trump têm sido um tiro no pé para a campanha bolsonarista.
Com essa percepção, a equipe de Lula investe cada vez mais no discurso da defesa da soberania e calcula cada passo da reação ao tarifaço. À espera de novas tarifas de 12,5% na sexta-feira – que devem atingir 90 países que conteriam trabalho forçado em sua cadeia produtiva –, o Brasil examinará os setores americanos que podem ser alvo da Lei de Reciprocidade. Mas, de acordo com o governo, a análise é feita com muita cautela para evitar que medidas contra os EUA prejudiquem as empresas brasileiras.
Ministros vão começar a ouvir, a partir desta terça-feira, 21, os setores que serão afetados pelo tarifaço. A sobretaxa aos produtos brasileiros deve entrar em vigor nesta quarta-feira, 22. Em junho deste ano, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) propôs uma tarifa de 25% sobre importações do País após investigação sobre temas como desmatamento ilegal, pirataria e o sistema de pagamentos Pix. A investigação foi conduzida com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que permite aos EUA retaliar práticas consideradas prejudiciais às empresas americanas.
Fonte: Estadão
