Após União Europeia, Mercosul se volta para Ásia com início de negociações com Japão
Assunção
Encaminhado o acordo com a União Europeia, em vigor desde maio, o Mercosul agora se volta para o mercado asiático, e o início das negociações com o Japão, anunciado oficialmente nesta terça-feira (30), é o principal carro-chefe dessa tendência.
Para Santiago Peña, anfitrião da cúpula do Mercosul que ocorre nesta semana no Paraguai, a possível parceria com o país asiático é “um passo histórico que abre as portas para uma das economias mais fortes do mundo”.
Os japoneses são bons amigos e um dos melhores aliados que podemos ter em nosso bloco”, afirmou o paraguaio no discurso de abertura da reunião dos líderes. Estão presentes também Yamandú Orsi (Uruguai), Rodrigo Paz (Bolívia), José Antonio Kast (Chile) e Daniel Noboa (Equador), além do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o segundo a falar. O presidente da Argentina, Javier Milei, cancelou a ida ao evento de última hora.
“Nesta cúpula, daremos mais um passo ao lançar as negociações de uma parceria econômica com o Japão. Em breve, queremos fazer o mesmo com a China e seguir nos aproximando dos mercados mais dinâmicos do planeta”, afirmou o petista.
A síntese das discussões em andamento, divulgada nesta terça, afirma que “diante de circunstâncias internacionais instáveis”, Japão e Mercosul “cooperarão para garantir a segurança econômica e alimentar, incluindo a diversificação das cadeias de suprimento de setores estratégicos, a exemplo de minerais críticos, energia, tecnologia e agronegócio” e reforçar “uma ordem internacional baseada em regras, livre e justa”.
As “circunstâncias internacionais instáveis” incluem as diversas guerras em andamento, e uma ordem internacional “baseada em regras” se opõe às taxas que os Estados Unidos impõem a diversos países, incluindo o Brasil, desde que Donald Trump voltou ao poder.
A mais recente ameaça ocorreu no início do mês, quando o governo Trump propôs novo tarifaço de 25% sobre bens importados após uma investigação concluir que o Brasil teria práticas comerciais injustas.
O início do acordo com Tóquio foi divulgado neste mês, após uma reunião entre Lula e primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, às margens da cúpula do G7, em Évian-les-Bains, na França. No entanto, o anúncio oficial, ao menos para o Mercosul, foi guardado para a reunião no Paraguai.
Além do Japão, o bloco se prepara para a primeira rodada de um acordo de preferências tarifárias com o Vietnã e tenta aprofundar uma parceria, atualmente vista como muito restrita, com a Índia. Há ainda um tratado de livre comércio em fase final com os Emirados Árabes Unidos.
Recentemente, também entrou em vigor o acordo de livre comércio entre Mercosul e Singapura, assinado em 2023 no Rio de Janeiro. Diante desse cenário, há a expectativa de que a negociação com a Coreia do Sul seja retomada após cinco anos paralisada —em fevereiro, o presidente sul-coreano, Lee Jae-myung, afirmou que pretendia resgatar as conversas após reunião bilateral com Lula em Seul.
Fora da Ásia, o Reino Unido manifestou interesse em firmar uma parceria comercial com o Mercosul, segundo o Itamaraty afirmou na semana passada. A ideia é que as negociações não comecem do zero, já que Londres participou das conversas do acordo do bloco sul americano com o europeu até sair o brexit, em 2020. Outra perspectiva no horizonte é a fase final de um acordo de livre comércio com o Canadá.
Apesar dos diversos anúncios, a entrada em vigor dos acordos citados pode demorar anos. No caso do bloco europeu, as conversas levaram 26 anos e ainda tem rusgas a serem resolvidas.
Peña trouxe uma delas à baila nesta terça. “Apesar da enorme satisfação que significou a assinatura do acordo com a União Europeia, ficou um sabor amargo para o Paraguai”, disse, em referência à forma como os países estão organizando o comércio com a Europa.
Atualmente, as nações do Mercosul usam a cota de produtos com imposto reduzido ou zerado por meio de ordem de chegada. Assunção, porém, quer a garantia de 25% do comércio com o mercado europeu para cada país do bloco.
“Qual é o sentido de um acordo de livre comércio que reproduz as assimetrias existentes em vez de corrigi-las? Quando falamos de cotas, não estamos pedindo privilégios, estamos pedindo justiça, e é por isso que pedimos o reconhecimento dessa diferença, aquela que nos separa hoje”, disse Peña. “Queremos um Mercosul onde o mais forte pisoteia o mais fraco?.” Apesar disso, elogiou a atuação de Lula, a quem chamou de uma “figura permanente” no bloco, devido ao seu perído na Presidência brasileira, em prol da negociação. “Se há alguém que poderia fechar esse acordo, era o senhor”, afirmou, recordando a ausência do petista na assinatura da parceria, em janeiro deste ano, também em Assunção.
Fonte: Folha de São Paulo
