Durigan diz que se reunirá com EUA para debater classificação de PCC e CV como grupos terroristas
Eduardo Simões
São Paulo | Reuters
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta segunda-feira (1º) que terá reuniões nesta semana com autoridades dos EUA para tratar da decisão do governo norte-americano de designar as facções criminosas PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas internacionais.
Em entrevista à rádio CBN, Durigan disse que a designação pelo governo dos EUA pode gerar sanções a instituições financeiras brasileiras e, inclusive, impactar na utilização do Pix pela população brasileira.
“Veja, basta você ter uma alegação, uma visita da família Bolsonaro, uma alegação dizendo que um determinado banco brasileiro tem contas do PCC”, disse Durigan. “Aí a autoridade norte-americana pode dizer o seguinte: ‘então esse banco está sancionado pelo Tesouro norte-americano, ele não pode operar com o Pix porque o Pix tem sido usado para movimentar dinheiro de facção criminosa'”.
Em entrevista ao SBT News na tarde desta segunda-feira (1º), o ministro acrescentou que o Brasil não pode ter postura de “vassalo” frente aos EUA.
“Posso ligar para o Scott Bessent [secretário do Tesouro dos EUA] a qualquer momento. Não tenho problema com isso. Mas não cabe ao Brasil estar num lugar de vassalagem, passar a mão no telefone toda hora e ficar implorando aos Estados Unidos”, disse Durigan, ao ser questionado se o governo federal procuraria representantes do governo americano para discutir a nova designação do Departamento de Estado.
“Nos próximos dias isso [ligação] pode acontecer na medida que eu estiver com as informações todas que eu reputo necessárias, e no meu tempo vou fazer o contato com eles”, afirmou o ministro.
Posteriormente, em entrevista a jornalistas em Brasília, Durigan disse que não há reunião marcada com autoridades americanas. “A gente está reunindo as informações, vendo o que vem pela frente, avaliando os próximos passos. Tendo as informações todas, o diagnóstico claro e a posição, vou levar ao Scott Bessent sem nenhuma dúvida”, disse.
“O ponto principal é proteger os nossos empresários, proteger os nossos empregos, as nossas instituições financeiras, contra qualquer coisa que possa vir do exterior. O que vier do exterior para colaborar no combate ao crime organizado, é ótimo, a gente sempre acha bem-vindo. O problema é quando quer atrapalhar”, completou.
Na CBN, Durigan reconheceu que as facções criminosas causam “terror social” e interrupção de serviços públicos no Brasil, mas argumentou que essas organizações não atacam os EUA ou ferem a soberania americana –requisitos para designação como organização terrorista, segundo a lei americana. “[É] uma forçação de barra”, reclamou o ministro.
Ele também rejeitou alguns dos pontos levantados pelos EUA para abrir uma investigação de práticas comerciais –a chamada Seção 301– que deve apresentar recomendações iniciais ainda em junho e pode levar a novas sanções contra o Brasil.
“Ela [investigação] tem um caráter político muito mais do que técnico”, disse. “A gente tem esclarecido e participamos das conferências e das audiências com os técnicos norte-americanos, e eles próprios reconhecem que isso já foi esclarecido outras vezes”.
Desde 2025, os americanos investigam a 25 de março, rua popular de comércio em São Paulo, o Pix, sistema de pagamento integrado gratuito brasileiro, e o problema do desmatamento ilegal no Brasil, que, segundo eles, poderia constituir concorrência desleal em favor do agronegócio nacional.
Como mostrou a Folha, essa investigação tem potencial para causar danos adicionais à economia brasileira, para além das tarifas impostas pelo republicano no ano passado, e traz o risco de sanções consideradas de difícil reversão.
“É inaceitável que a gente receba esse tipo de intimidação perto do período eleitoral, a pretexto de dizer que está preocupado com o Brasil e com a higidez do nosso comércio. Quem está de fato preocupado somos nós”, disse o ministro. Mais tarde, na entrevista ao SBT News, Durigan admitiu que o governo teme a imposição de novas tarifas pelos EUA. “De fato tem uma preocupação com eventuais novas tarifas que podem ser impostas de maneira unilateral, não consderando bons argumentos que a gente levou. A preocupação existe.”
Fonte: Folha de São paulo
