Minerais críticos tornam o Brasil peça-chave no embate entre EUA e China, diz Thiago de Aragão

O relacionamento entre Brasil eEstados Unidos entrou em uma fase na qual a diplomacia de sorrisos entre os presidentes Lula e Donald Trump mascara uma complexa queda de braço geopolítica, diz Thiago de Aragão, CEO da Arko Advice, empresa de inteligência, análise política e relações governamentais. Enquanto as tarifas comerciais e as investigações do Representante Comercial dos EUA (USTR) são usadas como ferramentas de pressão política e subjetiva, o Brasil tenta equilibrar sua soberania com a necessidade de oferecer “entregas” em áreas como o mercado de etanol e a fiscalização ambiental para proteger ativos estratégicos como o Pix.

Segundo Aragão, o principal trunfo nesta nova era são os minerais críticos, que tornam o Brasil peça-chave no embate global entre Washington e Pequim.

Para ele, a recente classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos EUA não foi um acaso burocrático, mas uma manobra estratégica de pressão sobre o setor financeiro brasileiro, já que as tarifas tradicionais têm pouco impacto sobre as exportações nacionais.

No meio desse caldeirão que Trump colocou na fervura, o cenário desenhado aponta para uma reorganização global, que, paradoxalmente, oferece ao Brasil a oportunidade de reduzir sua profunda dependência comercial da China.

De acordo com Aragão, o momento exige que o País deixe de lado a visão de “tudo ou nada” e aprenda a navegar em múltiplas dimensões, transformando as ameaças de isolacionismo americano em uma janela para novos acordos internacionais e uma política de Estado de longo prazo. Leia a entrevista, a seguir:

As investigações pelos EUA sobre ‘práticas incoerentes’ do Brasil começaram há um ano, e o País vinha negociando de lá para cá. Dá para dizer que os EUA não consideraram os argumentos?

O cenário econômico do Brasil e do mundo e as implicações para o seu bolso, de segunda a sexta.

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Os argumentos que o Brasil apresentou servem até determinado ponto. O problema é que a questão tarifária não é necessariamente técnica: é muito subjetiva, envolve aspectos políticos — e a política é elástica. A argumentação técnica do Brasil satisfaz critérios técnicos, principalmente dentro do USTR. O problema é que o próprio USTR executa a tradução entre o desejo político, que é flexível, e o parâmetro técnico. O Brasil tem de jogar nessas duas esferas. Não adianta seguir com a argumentação técnica, quando a origem disso tudo é subjetiva, é política. As acusações do USTR nos dão dicas dos pontos, principalmente do ponto de vista político, que estão sendo estimulados para que os Estados Unidos tenham essa postura.

A longa reunião entre Lula e Trump não teve significado maior nessa conversa?

Teve sim. A relação na política bilateral funciona, hoje, em várias dimensões. O fato de Trump se sentar com o Lula, sorrir com o Lula e realizar comentários de que o Lula é uma pessoa agradável, com quem gosta de conversar, não necessariamente garante uma uniformidade positiva de posicionamento de Trump em relação a tudo. Existem alguns interesses muito específicos em relação ao Brasil. O principal deles, que pela primeira vez em muitos e muitos anos, coincide com o objetivo global e primordial dos Estados Unidos, é a questão dos minerais críticos. Nesse contexto, existe existe uma dimensão de simpatia particular, existe a dimensão dos minerais críticos, existe a questão do universo ideológico que aproxima Trump da família Bolsonaro, existe a questão da narrativa geral que Trump prometeu para todos os seus eleitores relacionados ao comércio, que faz com que ele tenha de demonstrar resultados nessa área. Trump não tem uma posição de gostar ou desgostar. Por isso não se pode se dizer que a relação e a reunião que eles tiveram foi fracasso ou sucesso.

É uma prática comum do governo dos Estados Unidos fazer pressão nessa questão de legislação, de Justiça contra as big techs?

Nada disso é comum, e tudo é novo. O próprio início da análise dessa investigação da USTR é subjetiva. Ela não partiu do órgão, partiu de Trump. Quando parte do chefe, não havia muita dúvida de que o resultado ia ser negativo para os países. Havia ali uma ordem do chefe para encontrar algo. As seis acusações do USTR variam entre alegações, nas quais existe uma justificativa e outras que são extremamente vagas e amplas. Por exemplo, a questão do comércio digital e meios de pagamentos eletrônicos, isso naturalmente é pressão das big techs. O Brasil tem uma argumentação técnica lógica para defender sua posição: o Pix não é uma empresa que tem acesso privilegiado ao mercado brasileiro, mas um direito, ao qual basta ser cidadão para ter acesso. Ele não pertence à mesma caixinha de produto elaborado por uma empresa em relação a outra. Esse é o argumento que o Brasil tem e vai trazer. Agora, se esse argumento técnico vai sustentar, isso é outra questão.

Quais são os pontos mais subjetivos?

O de propriedade intelectual aponta falhas na fiscalização contra falsificação. Em tese, o Brasil pode resolver esse ponto se comprometendo a aumentar a fiscalização contra falsificações e, de repente, até agilizar o processo de análise de patentes biofarmacêuticas. Esse é ponto é muito flexível e já oferece ao Brasil uma solução. O combate à corrupção é uma argumentação genérica, que não tem substância técnica. No acesso ao mercado de etanol, os Estados Unidos têm um ponto: o Brasil teria abandonado, em 2017, o tratamento tarifário recíproco. O último ponto, o do desmatamento ilegal, diz que, mesmo com o arcabouço legal, a aplicação da lei no Brasil é falha. Assim como a questão de propriedade intelectual, é uma falha de fiscalização que o Brasil pode contra-argumentar.

O cronograma determina que em 6 de julho será a audiência pública e 15 de julho é a data-limite. O que o Brasil pode oferecer ao governo Trump?

Existem duas linhas de comunicação. Na frente oficial, o Brasil pode buscar argumentação ponto por ponto. Se o Brasil resolve, por exemplo, a questão do acesso ao mercado de etanol e se compromete com uma argumentação robusta na questão de falha na fiscalização contra falsificação e maior celeridade no processo de análise de patentes, assim como com a questão do desmatamento, o País pode gerar ambiente mais favorável em relação aos outros pontos e diluir a questão do Pix. Ou seja, se entrega além da conta em determinados pontos para amenizar os pontos nos quais não se pode fazer grande coisa.

Porque há itens que envolvem soberania, certo?

Exatamente. Para não mexer nas coisas soberanas, é preciso caprichar nos pontos em que, de fato, é possível entregar alguma coisa, porque as seis acusações também trazem dicas de como solucioná-las. A linha extra oficial que o Brasil pode acabar oferecendo é em relação a minerais críticos. O Brasil pode iniciar processos de cooperação, estudos, análises, termos de cooperação com os Estados Unidos, que indicam e satisfazem, do lado americano, uma percepção de potencial vínculo mais robusto nessa área, que é o que os Estados Unidos mais desejam no momento.

Isso está no radar dos EUA?

Exatamente. É um ponto muito importante e foi uma das razões pela qual Trump quis uma conversa com o Lula antes de conversar com o (presidente da China) Xi Jinping. Foi uma mensagem ao Xi Jinping de que Trump tem potencialmente o Brasil a seu lado.

Foi coincidência o anúncio das tarifas e a declaração de PCC e CV como organizações terroristas terem sido feitos em datas tão próximas?

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Em primeiro lugar, o anúncio do PCC e CV não teve nada a ver com a reunião do Flávio (Bolsonaro, pré-candidato à presidência) com Trump. Esse é um processo muito longo, burocrático, com amarras extremamente complexas entre vários órgãos americanos. Segundo, esse tema estava no radar há pelo menos dois anos e sairia a qualquer momento. Há, porém, um ponto muito importante. A China tem 51 milhões de toneladas métricas de minerais críticos, o Brasil tem 21 milhões, e o terceiro lugar tem 6 milhões. O Brasil tem papel importantíssimo nessa balança entre Estados Unidos e China. Levando em consideração que o Brasil tem esse ativo, e que o mecanismo preferencial de Trump para pressionar os países é a questão das tarifas, o que isso nos revela? Como o Brasil é um dos poucos países que não são dependentes dos Estados Unidos comercialmente, já que apenas 10% das nossas exportações vão para lá e quase 60% desse total estão isentos de tarifa, apenas 4% a 5% das nossas exportações estão tarifadas. É ruim, mas necessariamente demolidor. Como a principal arma do governo Trump para forçar os países a negociar, em tese, não funciona com o Brasil, colocou-se na mesa outro ponto com o qual há pressão no País, que é a questão do Comando Vermelho e do PCC. Aí o Brasil não tem as cartas na manga, como acontece em relação a minerais críticos. Porque agora o Brasil não só está sofrendo pressão das indústrias afetadas por tarifas, mas de todo o setor financeiro que enxerga nisso risco sistêmico grande. É como se fosse complemento para esse ataque, para essa estratégia de avançar.

É mais do que uma política aplicada em vários países da América Latina?

Sim, porque dentro do próprio governo americano existiam muitas vozes contrárias. Foram dois anos de análises. Quando essa classificação foi aplicada no México, três bancos mexicanos quebraram, em curto espaço de tempo. Isso acendeu alerta no Departamento do Tesouro, que entendeu não ser necessariamente a melhor saída.

A lista de exceções revela também uma estratégia política de Trump?

Mais do que uma estratégia, foi uma imposição da realidade. Ele vê o risco real de perder a Câmara dos Deputados nas eleições de meio de mandato e a inflação hoje é o grande problema. Se ele já tem um problema gravíssimo de pressão inflacionária, com a guerra do Irã, ele conseguiu outro agora, mas fica muito difícil dele abandonar a defesa das tarifas de uma hora para outra. O sal brasileiro que é exportado para os Estados Unidos, por exemplo, é usado não só na indústria química, mas também para dissolver a neve em vários Estados americanos e é algo que os Estados Unidos não produzem. O custo vai aumentar para o americano, sem privilegiar o mercado doméstico. Não faz sentido esse produto ser tarifado. Uma coisa importante para lembrar em relação a Trump é que tudo que ele aplica é desenhado para ser retirado

Continua não sendo uma estratégia interessante retaliar os EUA, certo?

Não, o Brasil não consegue fazer uma retaliação com um corte tão preciso para prejudicar empresas americanas ou o governo dos EUA sem prejudicar o consumidor brasileiro. Uma ação similar do lado brasileiro geraria impacto muito negativo.

O Brasil não tem o que fazer?

O Brasil é um dos dez países do mundo que têm cooperação de inteligência mais profunda e técnica com os Estados Unidos. O Brasil, em tese, poderia pausar essa cooperação, e isso, sim, geraria impacto muito grande.

O que é isso, exatamente?

O Brasil tem vários acordos vigentes muito robustos com em relação à cooperação técnica na área de inteligência e intercâmbio de informação. Envolve lavagem de dinheiro, tráfico de drogas, atividade terrorista. Seria um problema se o Brasil fosse para esse lado de retaliação. Ao mesmo tempo, também seria problema para o lado brasileiro, porque é uma relação de décadas de confiança.

Como é que a gente pode resumir esse momento?

Esse é um momento interessante, porque a pressão dos Estados Unidos tem ajudado os países a se reorganizar, em termos de relações comerciais e de confiança. Vários jornais na China chamam Trump de ‘o grande pai da nação’, porque eles entendem que Trump ajudou muito a China nos últimos anos. A União Europeia se fortaleceu e deixou de lado vários problemas internos para se unificar e achar pontos de equilíbrio por conta de Trump. O México ampliou sua rede de relação com outros países por conta disso, bem como a Índia. A relação entre União Europeia e China nunca foi tão boa por conta de Trump. É o momento em que o comércio internacional e as relações de confiança estão se reorganizando. O Brasil tem um problema grave de dependência em relação à China, e o País se esforça muito pouco para criar alternativas. Qualquer decisão agrícola hoje tomada em Pequim é mais importante do que qualquer decisão tomada em Brasília. As mudanças de Trump no mundo, vistas como uma ameaça, deveriam ser encaradas como uma oportunidade de reorganização. O acordo entre União Europeia e Mercosul dificilmente sairia se a União Europeia não se sentisse abandonada pelos Estados Unidos. Cabe ao Brasil aproveitar esse momento para se reorganizar e aumentar consideravelmente sua relação com países com os quais ele antes não imaginava. Não quer dizer que devemos abandonar os Estados Unidos, mas dá uma margem de manobra para argumentar com os Estados Unidos também reduzir a dependência profunda com a China.

Deveríamos organizar uma política de Estado pensada no longo prazo? É isso, porque, pela primeira vez em décadas, toda a conexão de comércio internacional e também de geopolítica está sendo reorganizada no mundo. Essa reorganização implica riscos e oportunidades, e depende de como que nós queremos ver. Temos excesso de dependência em relação à China e riscos pequenos em relação aos Estados Unidos, mas temos oportunidades muito grandes também, bem como em relação à Europa e à Índia, mas isso custa tempo e dinheiro.


Fonte: Estadão

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