Fim da taxa das blusinhas torna agenda ESG ‘muito difícil de sustentar’ no setor têxtil, dizem CEOs
O fim da tributação sobre produtos importados de até US$ 50, a chamada “taxa das blusinhas”, acirrou a queda de braço entre varejistas do setor têxtil e plataformas que vendem roupas com preço menor do exterior no Brasil, com mais outra pauta em debate além dos questionamentos tributários: quem vai pagar a conta de possíveis impactos para a agenda ESG no setor?
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Nomes do setor ouvidos pelo Estadão afirmam que se sentem prejudicados ao ter de sustentar produção com mais tributos e ter regulamentos trabalhistas a cumprir, mantendo investimentos nos três pilares da área, enquanto produtos de moda internacionais chegam mais baratos via plataformas, e com menos mecanismos para rastreabilidade da origem sustentável dos tecidos e do monitoramento de formas de produção alinhada às boas práticas trabalhistas.
Procurada pelo Estadão, a Shein afirmou entender que rastreabilidade e monitoramento da cadeia de suprimentos são temas centrais para toda a indústria global da moda, incluindo plataformas internacionais de e-commerce, e acrescentou que, nos últimos anos, a companhia vem ampliando seus mecanismos de controle, auditoria e monitoramento de fornecedores, com foco tanto em práticas trabalhistas quanto em processos produtivos e rastreabilidade da cadeia (leia mais abaixo as explicações da plataforma). A Shopee não respondeu ao contato da reportagem.
A Associação Brasileira do Varejo Têxtil (Abvtex), que representa uma centena de marcas, é uma das entidades que colocam o tema em discussão. Segundo o presidente do órgão, Edmundo Lima, a associação “repudia com veemência” a decisão do governo federal de extinguir a tributação e considera que a medida “amplia a desigualdade competitiva entre empresas nacionais e plataformas estrangeiras, trazendo também impactos relevantes para a agenda ESG no Brasil”
Ele acrescenta que há “um desequilíbrio” nas condições de operação que penaliza as empresas que investem em práticas alinhadas aos princípios ESG. A ausência de isonomia regulatória, segundo ele, enfraquece cadeias produtivas comprometidas com governança, direitos trabalhistas e desenvolvimento sustentável.
“Enquanto a indústria nacional opera sob regras ambientais rigorosas e investimentos crescentes em rastreabilidade, gestão de resíduos, eficiência energética e produção limpa, parte dos produtos importados chega ao mercado brasileiro sem o mesmo nível de transparência e controle socioambiental. A ausência de isonomia regulatória desestimula empresas comprometidas com práticas sustentáveis e favorece modelos de produção marcados pelo consumo descartável, baixa rastreabilidade e elevado impacto logístico e ambiental.”
O gestor não citou nominalmente as plataformas. Shopee e Shein são os nomes de referência como empresas de marketplace fundadas fora do Brasil (Singapura e China, respectivamente) que estavam, até então, sendo alvo das tributações recém extintas. Segundo a pesquisa Consumo Multicanal — 2025, realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), a Shopee lidera o ranking de utilização dos usuários de marketplace no País com 73% de utilização, seguida por Mercado Livre (63%), Amazon (39%), Shein (37%).
Na lista das categorias que mais movimentam compras nas plataformas está o segmento vestuário, calçados e acessórios, concentrando 46% das transações. O setor é o foco dominante entre os produtos da Shein, a única plataforma concentrada em moda bem posicionada no interesse dos consumidores.
O que diz a Shein
“De acordo com seu relatório ESG mais recente, a Shein realizou 4.822 auditorias presenciais em fornecedores e subcontratados em 2025, abrangendo fabricantes responsáveis por 96,3% do valor de aquisição de produtos da marca Shein. Além disso, a empresa mantém processos de monitoramento relacionados às condições de trabalho em sua cadeia produtiva. Um estudo conduzido pela Worldwide Responsible Accredited Production (WRAP), com análise de mais de 7 mil amostras salariais, indicou que 99,8% dos trabalhadores avaliados receberam remuneração igual ou superior ao salário mínimo legal aplicável.”
Em relação à rastreabilidade e sustentabilidade da cadeia de suprimentos, a empresa informou que “vem ampliando iniciativas voltadas à gestão e monitoramento de fornecedores e matérias-primas, incluindo programas desenvolvidos em parceria com organizações independentes como Bureau Veritas e TÜV Rheinland. A companhia segue investindo no aprimoramento contínuo de seus processos de governança, compliance e transparência em toda a cadeia de fornecimento”.
Na semana passada, a plataforma declarou apoio à decisão do governo federal de revogar o imposto de importação, entendendo que a medida foi um “passo importante” para democratizar o acesso à compra da população de menor poder aquisitivo.
“Reconhecemos que essa é uma grande vitória para o consumidor e acreditamos que a decisão contribui para ampliar o acesso da população a produtos de qualidade, a preços acessíveis e a uma maior diversidade de oferta, preservando a competitividade, a inclusão econômica e a liberdade de escolha dos brasileiros”, afirmou em nota o presidente da Shein no Brasil, Felipe Feistler.
O que dizem CEOs de varejistas
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O CEO do Grupo Hope, José Luís Fernandes, considera ser “muito difícil” sustentar uma jornada ESG no cenário atual e ressalta que as empresas nacionais estão competindo em condições de desigualdade com as plataformas. Os preços mais baixos geralmente encontrados nesses espaços de compra seriam uma barreira a mais nesse processo.
“É muito difícil sustentar uma jornada de ESG em um cenário onde empresas nacionais, que seguem regras trabalhistas, ambientais e tributárias rígidas, competem em condições desiguais com plataformas internacionais. O consumidor merece acesso a produtos com preço competitivo, mas também é importante refletirmos sobre qual modelo de consumo estamos incentivando e quais impactos isso gera para a indústria, para os empregos e para o futuro sustentável do setor têxtil no Brasil.”
Em entrevista ao Estadão no ano passado, Fernandes considerou a taxa das blusinhas uma correção parcial da concorrência, mas ainda não via equidade na medida. “Honestamente, não se praticou ainda uma equidade, pelo menos uma equidade tributária. Não estou falando (apenas) da equidade trabalhista e socioambiental, pois não conseguimos ter uma visão sobre isso. Essa situação acaba gerando uma competição bastante desastrosa”, disse à época.
Em linha semelhante, o CEO da Riachuelo, André Farber, em nota, considera impossível falar em competição justa “quando o Brasil impõe custos cada vez maiores para quem produz, emprega e investe localmente, enquanto amplia espaço para uma concorrência subsidiada pelo governo chinês dentro do próprio mercado brasileiro”. Ele acrescenta: “As empresas instaladas aqui (no Brasil) pagam 35% de imposto de importação, além de 11,25% de PIS/Cofins e toda a carga tributária e trabalhista local, enquanto operações de cross border seguem acessando o mercado brasileiro em condições muito mais favoráveis”.
Segundo o gestor, o Brasil está dificultando a sobrevivência da própria indústria nacional dentro do seu mercado, ao encerrar a taxação. “Entendemos que o consumidor busca preços acessíveis, mas sem emprego e renda não existe consumo sustentável. Essa discussão está longe de ser uma simples ‘taxa das blusinhas’. Na prática, é um incentivo chinês dentro do mercado brasileiro, enquanto a indústria nacional continua em clara desvantagem. E o Brasil é a única cadeia têxtil completa do Ocidente, não podemos tratar isso como algo descartável”.
No início deste ano, ao Estadão, Farber já havia afirmado que o setor vivia em uma situação de “injustiça tributária”, ao fazer um balanço de investimentos em iniciativas de sustentabilidade adotadas pela Riachuelo no processo fabril em 2025.
Em 2024, o CEO da Renner, Fabio Faccio, apontou a concorrência com as roupas mais baratas como uma das barreiras para alcançar as metas climáticas no têxtil brasileiro. “Um ponto que às vezes é muito falado é da moda descartável, o fast fashion, em que se produzem produtos de baixa qualidade e que as pessoas usam uma vez e jogam fora. Isso gera um lixo para o meio ambiente, acaba usando mais energia, mais matéria-prima com questões de toxicidade, a um preço muito baixo. Isso é um problema muito sério na nossa indústria.”
O gestor continua vocal na defesa de isonomia tributária, mas à reportagem, disse que, apesar da medida, não deixará que a recente retirada da taxação impacte a estratégia de sustentabilidade adotada pela companhia. “Esta medida não (vai impactar) nossa estratégia de moda responsável, norteada por compromissos públicos com metas concretas e mensuráveis. Há mais de 10 anos, a sustentabilidade é um valor corporativo e parte central dos nossos objetivos estratégicos, refletindo a responsabilidade que assumimos enquanto líderes do varejo de moda no Brasil e agentes de transformação do setor.”
Fonte: Estadão
