IA elimina burocracia, mas não substitui profissional do Direito, dizem especialistas

Só três de cada oito horas trabalhadas são usadas em atividades específicas da profissão, diz Daniel Marques, diretor-executivo da AB2L

Fábio Grellet

A influência da inteligência artificial (IA) na rotina dos profissionais do Direito foi tema da maioria dos debates realizados durante o primeiro dia da AB2L Lawtech Experience 2026, congresso de Direito e tecnologia promovido nesta quarta e quinta-feiras no Rio de Janeiro pela Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs (AB2L).

Especialistas avaliam que a IA e outros recursos tecnológicos vão permitir que os advogados economizem cada vez mais tempo com reunião de documentos, pesquisas teóricas e outras tarefas burocráticas, criando mais espaço para que eles se concentrem em ouvir o cliente e definir estratégias processuais.

A tecnologia, porém, não vai substituir o profissional do Direito em etapas decisivas dos processos, avaliam.

“Em um país onde tramitam 80 milhões de processos e que tem 1,5 milhão de advogados, eles dedicam só três de cada oito horas trabalhadas para atividades que são específicas da profissão”, contou Daniel Marques, diretor-executivo da AB2L.

As demais horas de trabalho são ocupadas com tarefas que não exigem especialização em Direito. “Hoje, 74% das tarefas de um escritório de advocacia podem ser automatizadas” afirmou Marques durante a abertura do evento.

Segundo o diretor-executivo da AB2L, uma pesquisa com advogados indicou que 73% consideram que a rotina profissional mudou mais nos últimos três anos do que nos 30 anos anteriores, mas só 14% se consideram capazes de liderar essa transição que se tornou indispensável.

No painel “Fazer Mais com Menos – O Papel da Tecnologia na Redução de Custos para o Advogado”, Flávia Azeredo, procuradora federal, deu exemplos de como a tecnologia permite otimizar o tempo do profissional do Direito. “A Advocacia-Geral da União recebe 8 mil intimações por dia, 6 mil delas relativas ao Direito Previdenciário. Nossa plataforma ajuda na classificação. Imagine como seria sem ajuda da tecnologia”, contou.

O uso de IA por magistrados

Além dos reflexos para os advogados públicos e privados, também foi debatida a IA na atuação dos magistrados. No painel “Quem Decide quando a IA Decide”, o desembargador Humberto Dalla, do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ), citou pesquisa segundo a qual mais de 50% dos juízes brasileiros já usa IA na produção de sentenças. “Em breve vai ser divulgada uma nova pesquisa e aposto que esse número vai subir para 70% ou 75%”, previu Dalla, que ressaltou a importância de o profissional supervisionar cada etapa da produção textual e não apenas revisar o resultado final.

“O Brasil é um dos poucos países que têm normas sobre isso. A Resolução 615 do Conselho Nacional de Justiça (publicada em julho de 2025) autoriza o uso da IA para auxiliar a atividade do juiz”, disse o desembargador. Reportagem do JOTA publicada nesta quarta-feira (13/5) mostrou, inclusive, que o sistema de inteligência artificial Galileu, utilizado pelo Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região (TRT8), identificou um prompt oculto numa petição inicial que visava manipular a IA para obter um resultado favorável no processo. A prática é conhecida como prompt injection.

Dalla também destacou o volume de normas jurídicas publicadas diariamente e a sobrecarga de trabalho dos magistrados: “Desde a Constituição Federal de 1988, já foram publicadas 7,8 milhões de normas jurídicas, o que representa 860 normas a cada dia útil, ou 36 normas por hora útil. Por mais especializado que o profissional seja, é impossível acompanhar sem a ajuda da tecnologia”, afirmou.

O Brasil tem 18 mil juízes responsáveis por quase 80 milhões de processos. É claro que a IA pode ajudar, a questão é saber os limites”, ponderou, relembrando que em 2025 o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) anulou uma sentença que continha alerta de ter sido produzida com uso de IA.

A advogada Livia Sancio, que participou do mesmo painel, relembrou uma frase da ministra Daniela Teixeira, do Superior Tribunal de Justica (STJ). “Como afirmou outro dia a ministra, ‘enquanto a IA não tiver empatia nem chorar diante de um processo, não pode julgar'”, disse a advogada. “Algumas tarefas do advogado são exclusivamente humanas e nunca serão substituídas”, afirmou.

No painel “A Fronteira do Esgotamento – IA, Advocacia e Burnout Tecnológico”, a advogada Gláucia Campolina, da Camargos Campolina Advocacia, ponderou que, em vez de mais tempo livre, a tecnologia proporcionou sobrecarga de trabalho e ansiedade digital aos profissionais de carreiras jurídicas. Para evitar doenças como a síndrome de Burnout, decorrente do esgotamento profissional, ela recomendou interrupções do trabalho diante do computador a cada 20 minutos. “A pessoa deve desviar o olhar para um objeto distante aproximadamente seis metros e fixar o olhar nesse ponto por 20 segundos”. Outra dica foi evitar o uso de telas (de celular, de TV, de computador) pelo menos uma hora antes de ir dormir. “Hoje o advogado registra uma petição às 23h59, desliga o computador e tenta dormir, mas não é o ideal”, afirmou.

Perfil e renda média do advogado no Brasil

A pressão por trabalho decorre também do perfil da maioria dos advogados, destacaram especialistas. Embora haja escritórios muito famosos e bem sucedidos, a média no Brasil não é essa. “A renda média de um advogado no Brasil é de R$ 3.700 ao mês”, contou Pedro Silveira, presidente da Caixa de Assistência dos Advogados de Pernambuco.

“A grande maioria, 65%, são empresários individuais, mantém sozinho seu escritório, e 70% têm até dez clientes por ano”, afirmou. “Apesar dos recursos tecnológicos, é a propaganda boca-a-boca que ainda rende a maior parte dos contratos”, contou.

“Uma pesquisa perguntou aos advogados quais características eles achavam que determinava que um cliente os escolhesse, e a maioria respondeu ‘experiência e seriedade’, enquanto os clientes responderam a mesma pergunta dizendo que o que importa para eles é a empatia e a proatividade do advogado”, contou Silveira.

Departamentos jurídicos e novas tecnologias

O painel “Departamento Jurídico do Futuro – Visão, Dados e Resultados” debateu como essas áreas das empresas estão se adaptando às novas tecnologias. “Com o controle de dados que é possível hoje em dia, o Jurídico não só reduz despesas como se tornou responsável por recuperar créditos da empresa”, afirmou Fernanda Rocha, diretora jurídica da Energisa.

Questionada sobre o modelo que os departamentos jurídicos terão daqui a cinco anos, ela previu que eles vão ficar menores em função das inovações tecnológicas, mas seguirão fundamentais e com produtividade cada vez maior.

Nicole Bentes, gerente jurídica do Banco Bacom BBM, afirmou no mesmo painel que a tecnologia permite acompanhar tendências de decisões judiciais sobre assuntos recorrentes, o que dá maior previsibilidade às causas. “Em São Paulo esse assunto costuma ser decidido assim, no Mato Grosso dessa forma, e isso ajuda a nortear o Jurídico”. O congresso jurídico da AB2L, que está em sua quinta edição e reúne 8 mil inscritos, continua nesta quinta-feira (14/5), último dia do evento, com mais palestras e painéis no Rio de Janeiro.


Fonte: JOTA

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