O acordo Mercosul–Efta é uma oportunidade ou uma armadilha
O anúncio do acordo de livre-comércio entre Mercosul e Associação Europeia de Livre Comércio (Efta) — bloco formado por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein — foi saudado pelo governo como um triunfo histórico para o nosso agronegócio. Estima-se um incremento anual de US$ 7,2 bilhões nas trocas comerciais e a eliminação de tarifas sobre produtos exportados do Brasil. À primeira vista, os números impressionam. Mas uma análise cautelosa revela uma equação de ganhos modestos diante de riscos consideráveis.
A Efta reúne países ricos, mas com apenas 13,6 milhões de consumidores, número diminuto diante da União Europeia ou dos EUA. Em contrapartida, o Mercosul, com 284 milhões de habitantes, abre mão de barreiras em setores industriais estratégicos — máquinas, fármacos e químicos, cujas tarifas chegam a 20% — para dar acesso irrestrito a produtores europeus.
á do lado agrícola, em que o Brasil detém claras vantagens competitivas, as concessões foram limitadas a cotas simbólicas: a Suíça, por exemplo, só importará menos de 2% de sua demanda anual de carne bovina.
O risco é cristalizar o papel do Brasil como fazenda e mina do mundo, enquanto a reindustrialização fica para a Europa. Mesmo o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad admitiu que alguns ganhos são apenas pontuais.
Projeções do próprio Itamaraty estimam impacto de apenas R$ 770 milhões no saldo comercial e acréscimo de R$ 2,69 bilhões ao PIB até 2044 – valores irrisórios para uma economia de quase R$ 10 trilhões. México, Chile e Colômbia, que celebraram dezenas de tratados semelhantes, mostram que maior abertura não significa diversificação produtiva e salto industrial.
Além da economia, há desafios ambientais. O Regulamento Europeu de Desmatamento (EUDR), já em vigor, exige rastreabilidade e certificações rigorosas.
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estima que até 7% das exportações críticas da Amazônia e 3% do Cerrado poderão ser barradas. Isso significa custos adicionais para produtores sérios, enquanto o acordo não diferencia quem investe em sustentabilidade de quem ignora boas práticas.
No campo das compras governamentais, o tratado abre parte relevante das licitações brasileiras a empresas estrangeiras, limitando políticas industriais futuras. Em termos práticos, o Brasil pode ter dificuldade de ampliar programas de preferência nacional — ferramenta vital de desenvolvimento em países como a China, que mantém seu mercado público fechado. Não se trata de negar a importância de diversificar parcerias comerciais. Mas a pressa em assinar pode custar caro ao País.
Fonte: Estadão
