Fim da escala 6×1: Como a regra é de que vale tudo, tudo vale agora para aprovar redução da jornada

Se havia dúvida, a ex-presidente Dilma esclareceu ainda em 2013, quando disse que “nós podemos fazer o diabo quando é hora de eleição”. São os males da reeleição; vale tudo.

Trata-se do velho dilema intertemporal estudado pela teoria econômica. Desconta-se o futuro a uma taxa muito alta, já que pior do que ter de enfrentar problemas fiscais no próximo governo é perder a eleição agora e deixar os apanágios do poder.

O futuro fica para depois. O presidente Lula sabe bem disso. Na volta a gente compra. Convencer um governante a ser austero em ano de eleição é o mesmo que alertar um prisioneiro condenado à morte sobre os malefícios do fumo. O quadro econômico atual deveria favorecer o governo. Não há crise e a vida como ela é, tudo somado, está melhor. A deterioração fiscal, nosso problema precípuo, não faz parte das preocupações cotidianas do eleitor, que não se dá ao trabalho de perder o sono com a trajetória da relação dívida/PIB.

Desde a posse do presidente Lula em janeiro de 2023, a quantidade de trabalhadores com carteira assinada aumentou em 3,3 milhões, ou quase 10%, de acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad).

A taxa de desemprego, medida pela média de 12 meses, caiu de 9,5%, em 2022, para 5,9%, agora. O rendimento médio, também pela média de 12 meses, subiu quase 15% acima da inflação entre dezembro de 2022 e janeiro de 2026. Nada mal — mas insuficiente. A pesquisa mais recente da Genial Quaest mostra que apenas 31% dos pesquisados têm uma avaliação positiva do governo Lula. Mesmo a recente isenção do Imposto de Renda teve efeito acanhado.

O Ministério da Fazenda estimou um aumento da renda de R$ 25,8 bilhões em 2026, favorecendo 10 milhões de beneficiários, mas a mesma pesquisa indica que 62% das pessoas que ganham de 2 a 5 salários mínimos disseram que não foram favorecidas pela medida.

Como a regra é de que vale tudo, tudo vale agora para aprovar a redução da jornada de trabalho. É a última cartada do diabo. Vai dar certo desta vez? É duvidoso. Se for adiante, poderá ter impacto sobre a inflação, o que seria um tiro no pé. Sem falar no eventual desconforto de encontrar lojas fechadas no fim de semana.

A inflação também será impactada pela guerra insana no Oriente Médio. O governo petista não é culpado, mas sabe que pagará a conta — daí o desespero de promover mais uma rodada de medidas populistas. O fato é que benefícios econômicos não têm encontrado eco nas preferências eleitorais. Não há lealdade emocional nem identificação de valores com o PT, que envelheceu mal. A fadiga com um discurso poroso e antigo supera a percepção dos benefícios. Para piorar, a sensação de que a corrupção grassa à solta sempre prejudica a imagem de quem está no comando. Fazer o diabo não basta.


Fonte: Estadão

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