Como o GPA passou de maior varejista do Brasil a empresa em recuperação extrajudicial
Em menos de uma década, o Grupo Pão de Açúcar (GPA) passou da posição de maior empresa do varejo brasileiro à de uma organização em recuperação extrajudicial. A situação atual, financeira e mesmo operacional, pouco lembra os períodos de glória da companhia até o começo da década passada.
Depois de ter se tornado uma pioneira da modernização do varejo alimentar brasileiro, mudou até mesmo o mercado de vendas de eletrodomésticos. Em um período de três anos, entre 2007, comprou o atacarejo Assai e as redes Ponto Frio e Casas Bahia.
Até 2015, o grupo liderava o ranking de maiores supermercados brasileiros, com faturamento de R$ 76,9 bilhões. No auge, empregando 171 mil pessoas, o grupo tinha valor de mercado de US$ 10 bilhões, na virada de 2014 para 2015. Chegou a ser o maior empregador privado do País.
Desde então, todos esses negócios foram desmembrados ou vendidos. O grupo atual, desidratado, fechou 2025 com R$ 20,6 bilhões de faturamento, 37 mil empregados e um valor de mercado em torno de R$ 1,3 bilhão.
No mais recente balanço, relativo ao último trimestre de 2025, o GPA divulgou que a dívida líquida, incluindo recebíveis de cartão de crédito não antecipados, somava R$ 2 bilhões, aumento de R$ 729 milhões em relação ao registrado no fim de 2024. Cerca de R$ 500 milhões vencem em maio, enquanto entre R$ 1,2 bilhão e R$ 1,3 bilhão têm vencimento previsto para julho, o que pressionou por uma renegociação.
Segundo o fato relevante divulgado nesta terça-feira, 10, o plano abrange obrigações financeiras “sem garantia” que não constituem compromissos correntes ou operacionais da companhia.
Qual é o plano do CEO?
No posto há apenas dois meses, Santoro defende que o objetivo é reorganizar o perfil de endividamento da companhia sem afetar a operação. “Essa medida é o início de um processo de reestruturação das nossas dívidas não operacionais. Ela não envolve pagamento a fornecedor, aluguel de loja ou salário de colaborador. A operação segue funcionando normalmente”, disse.
O executivo acrescentou que a decisão foi aprovada por unanimidade pelo conselho de administração, que reúne acionistas que representam cerca de 70% das ações da companhia. “Apesar do curto tempo que estou na companhia, essa agenda está alinhada à minha experiência e ao mandato de ajudar os acionistas a resolver alguns problemas estruturais”, afirmou.
Na semana passada, o CEO já havia enviado uma carta para tranquilizar os fornecedores de que a empresa continuaria pagando as suas contas, depois de um alerta no balanço ter chamado a atenção do mercado.
Uma nota explicativa, revisada pela auditoria Deloitte, trazia uma preocupação sobre “incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa sobre a continuidade operacional da companhia”.
No quarto trimestre do ano passado, o GPA registrou um prejuízo líquido consolidado de R$ 572 milhões, redução de 48,2% em relação ao prejuízo de R$ 1,104 bilhão apurado em igual período de 2024.
Segundo a auditoria, ao fim de 2025, o GPA apresentava déficit de capital circulante líquido de aproximadamente R$ 1,224 bilhão, decorrente principalmente dos empréstimos e debêntures com vencimento em 2026 que somavam mais de R$ 1,7 bilhão.
Preocupações como essas pareciam impensáveis para o grupo no começo da década de 2010. A operação funcionava com cinco negócios diferentes, a de multivarejo que combinava os negócios originais de super e hipermercados (com as marcas Pão de Açúcar e Extra), uma de comércio eletrônico, a Nova Pontocom, outra, a Globex, que combinava os negócios de eletrodomésticos e móveis (Ponto Frio e Casas Bahia) e se tornaria a empresa Via Varejo, além do atacarejo Assaí, e por fim uma divisão que cuidava dos imóveis do grupo. Todas elas reportando para o CEO, Eneas Pestana e para o controlador do conglomerado, Abilio.
Mas, já no meio da década passada, mesmo com a empresa batendo recorde de faturamento, as raízes para a derrocada logo estavam plantadas. Em 2012, o GPA trocou de comando, após uma intensa batalha nos bastidores entre Abilio Diniz e o franco-argelino Jean-Charles Naouri, dono do grupo francês Casino.
Os dois empresários tinham personalidade forte. Durante a década de 1990, Abilio havia consolidado o poder no grupo brasileiro fundado em 1948, depois de uma disputa entre os herdeiros de Valentim para ser o dono dos destinos da operação, e ao comprar ações dos irmãos, pacificando o controle.
Em entrevistas, o empresário e grande praticante de esportes também assumia que havia sido bastante brigão e agressivo, dentro e fora dos negócios. Por ser “gordinho e baixinho” como se definia, começou a praticar boxe e outras lutas na adolescência e se envolvia em constantes brigas de rua até os 60 anos de idade.
Ele já havia passado por experiência transformadora, em dezembro de 1989, quando foi sequestrado durante a primeira eleição brasileira da redemocratização e depois libertado pela polícia que suspeitou da música alta que saía do cativeiro.
Já Naouri tinha um passado de serviço público, tendo ascendido velozmente ao posto de diretor de gabinete do ministério da economia francês durante o governo de François Mitterrand nos anos 1980 e sócio do banco de investimentos Rothschild, depois de se formar em matemática e física. Ao partir para a iniciativa privada, ele ficou conhecido pela ousadia e havia assumido o Casino por meio de uma compra hostil, feita em 1997 a partir do concorrente Rallye, originado na Bretanha.
Em 1999, o grupo francês comprou 25% de participação no GPA, o que fomentou a expansão da empresa. A relação entre os dois empresários que guardavam diversas semelhanças entre si era boa.
Passavam férias juntos com suas famílias, e em 2005, em um momento de endividamento, os dois assinaram um contrato que dividia a empresa brasileira em 50% para cada lado, mediante pagamento de quase US$ 881 milhões pelos franceses.
Uma cláusula previa que os franceses poderiam, no entanto, exercer a compra de controle depois de um certo período. Diniz costumava dizer que ter aceitado os termos desse contrato teria sido o maior erro de sua vida.
Pessoas próximas ao empresário diziam que ele não acreditava que poderia perder algum dia o controle da empresa da família. Cerca de um ano depois de fechar a compra da Casas Bahia da família Klein, numa dura negociação e renegociação dos valores, Abilio entrou em outra briga, para evitar que Naouri exercesse a compra do GPA. Meses de brigas públicas depois, ele precisou aceitar em 2012 a perda do controle.
Ele tentou ainda promover uma fusão entre o GPA e o Carrefour, sem avisar os sócios, o que foi visto por Naouri como uma manobra pelas costas para não perder o comando. E a disputa se intensificou. Depois que o Casino firmou o seu poder da empresa brasileira, Naouri começou a mudar os modelos de negócios.
Em um encontro com a imprensa brasileira em dezembro de 2013, no principal escritório do Casino em Paris (a sede fica em Saint Etiénne, na região central da França), localizado próximo à Torre Eiffel, Naouri detalhou como as coisas iriam mudar.
A estratégia digital mudaria, com a Nova Pontocom se assemelhando às suas operações francesas com a CDiscount, e a abertura de lojas de grande porte seria substituída por mercados pequenos de bairro, no conceito que ficou conhecido como varejo de proximidade.
Não sou herdeiro de um grupo de varejo, isso pode até ser um defeito”, disse o empresário nascido na Argélia. “Mas comecei a minha carreira sem nenhum tostão e hoje estou à frente de um grande grupo mundial.” A mensagem era uma resposta clara às críticas recebidas de que não entendia de varejo, feitas por Diniz e por membros de famílias que controlavam grupos abocanhados por Naouri na França.
“É surpreendente que o Brasil, por seu tamanho, esteja atrasado nos pequenos formatos”, disse Antoine Giscard D’Estaing, então diretor financeiro e membro do conselho do Casino, além de sobrinho do ex-presidente francês Valéry Giscard D’Estaing.
Em 2014, o grupo lançou o modelo de loja de proximidade, o Minuto Pão de Açúcar, para os consumidores que buscam compras de conveniência e de reposição. A operação da Nova Pontocom foi fundida à da CDiscount para formar a CNova, que depois foi absorvida pelo Via Varejo.
Divisões
O que se viu nos anos seguintes foi uma série de decisões polêmicas e que diversos ex-executivos de altos cargos que passaram pelo grupo pelas últimas três décadas apontam, em condição de anonimato, como um desmonte do GPA.
A Via Varejo foi vendida de volta para a família Klein e hoje opera com capital diluído, de novo com o nome de Casas Bahia, tendo realizado a sua própria recuperação extrajudicial.
Em 2019, o GPA deixou por completo de ter ações da então Via Varejo. O Assaí, o negócio de maior crescimento, foi desmembrado da operação do Pão de Açúcar, em 2021, e 70 lojas do Extra foram repassadas para a nova empresa, determinando o fim da atuação do grupo em hipermercados.
No movimento mais contestado, o GPA comprou em 2019 ações da varejista colombiana Éxito, controlado pelo Casino. Assim, recursos levantados pela venda da Via Varejo por R$ 2,3 bilhões acabaram sendo redirecionados do Brasil para a França, sem ganhos para a operação local.
Em 2023, o GPA chegou a vender as ações na Bolsa de Valores da Colômbia, mas ele já havia carregado o peso financeiro da operação, sob um regime de juros ascendentes, e tinha desperdiçado anos com a gestão mais envolvida em acertos financeiros do que em melhorias nas lojas e em acompanhar as mudanças no varejo brasileiro.
Todos esses movimentos foram vistos como uma forma de Naouri capitalizar o Casino, abatido por endividamento crescente na França, que fez ele por fim ironicamente também perder o controle do seu grupo, em 2024, para o empresário tcheco Daniel Kretinsky. Procurado, o grupo francês não respondeu à reportagem.
Depois de utilizar todos os ativos mais valiosos do grupo da América do Sul, restou vender também o controle do GPA, que agora está nas mãos de outra família Diniz do varejo, os Coelho Diniz, que atuava anteriormente apenas em Minas Gerais. Procurado, André Coelho Diniz, atual presidente do conselho da administração do GPA, não se manifestou.
Atualmente, o Casino ainda detém 22,5% do GPA, e a família Coelho Diniz, 24,6%.
“A gestão do Casino principalmente no último ciclo penalizou demais a empresa. Estressou muito a estrutura de capital, drenando o caixa dela de diversas maneiras e endividou a empresa. A separação do Assaí deixou contingências de passivos no GPA. Tudo isso foi gerando uma pressão financeira, que com a empinada dos juros se tornou muito complexa e praticamente insustentável”, diz o consultor Alberto Serrentino, da Varese Retail e BTR-Varese.
Na última gestão, antes da chegada de Santoro, com a presidência de Marcelo Pimentel, entre 2022 e outubro de 2025, houve venda de ativos, mas que ainda não foi suficiente para solucionar os problemas, com a Selic a 15% ao ano. “Operacionalmente, o GPA está bem. Cresceu em vendas e em resultados. Resta saber como vai ficar a estrutura de capital, a liquidez e a capacidade de investimentos, após a recuperação extrajudicial”, diz o analista.
Tempos áureos
Em seu melhor momento, na década de 2000, o Pão de Açúcar teve um papel importante para a modernização do varejo alimentar brasileiro, e em vários outros negócios que tiveram. A empresa foi pioneira no e-commerce alimentar no Brasil, com o Amelia, em programas de fidelidade, em produtos de marca própria (Taeq e Qualitá), nos formatos de lojas, que mudava de unidade para unidade, com serviços diversos e açougues.
Num período pré-redes sociais, os executivos da empresa viajavam o mundo anualmente para conhecer novidades de lojas do exterior, e criou novas referências para o mercado brasileiro.
“A empresa tinha uma liderança inspiradora, com unidade de comando, e liderança executiva absolutamente envolvida e competente, o que permitia que a empresa inovasse”, afirma Marcos Gouvêa de Souza, diretor-geral e fundador da Gouvêa Ecosystem, grupo de consultorias especializadas em varejo. “Todo mundo está lamentando como aquela pujança, liderança e capacidade de transformar o setor foi reduzida.”
A empresa ainda desenvolveu uma marca que era bastante valorizada pelos consumidores. Patrocinava eventos esportivos, como corridas de rua, uma paixão de Abilio e sua família, e era conhecida pelo slogan “lugar de gente feliz”.
Abilio costumava dizer que, no momento de escolher as suas profissões, as pessoas pensavam: “Se nada der certo, eu vou pro varejo”. Os executivos de mais alto calibre evitavam o setor, que era conhecido pela baixa escolaridade e informalidade. O Pão de Açúcar ajudou a mudar essa visão, e os seus programas de trainees passaram a ser disputados pelos melhores formandos de administração de empresas. Esse interesse todo pela empresa pouco lembra o Pão de Açúcar de hoje, assim como a operação atual pouco lembra a do grupo do passado.
Fonte: Estadão
