Fórum Econômico Mundial começa dominado por geopolítica, temor de crise da dívida e de bolha da IA
DAVOS – Marcado pela piora geopolítica no mundo e pelo temor de bolha na inteligência artificial, o Fórum Econômico Mundial começa nesta segunda-feira, 19, em Davos, na Suíça, com os participantes mais temerosos dos rumos da economia mundial, inclusive com uma crise da dívida de países desenvolvidos e emergentes no radar.
Em 2025, mesmo com as várias tarifas comerciais impostas por Donald Trump, o Produto Interno Bruto (PIB) da economia mundial cresceu na casa dos 3,3%, mostrando força e conseguindo absorver choques. Mas, nas últimas semanas, a situação geopolítica piorou, com a queda de Nicolás Maduro na Venezuela, retirado de Caracas por Trump, e novas ofensivas da Casa Branca para ficar com a Groenlândia.
Nesse ambiente, a geopolítica é o fator que mais preocupa os participantes do fórum no curto prazo, segundo o “Relatório de Riscos Globais 2026”, que ouviu mais de 1,3 mil líderes de governos, investidores e empresários. “Nossa reunião anual está ocorrendo no cenário geopolítico mais complexo desde 1945. No entanto, a economia global tem se mostrado muito resiliente”, disse o CEO e presidente do Fórum Econômico Mundial, Borge Brende, em entrevista à imprensa.
“O encontro ocorrerá este ano em um momento de profunda transformação, marcado pelo aumento das tensões geopolíticas, incerteza econômica e rápida mudança tecnológica”, disse a jornalistas a diretora-gerente do Fórum, Sheba Crocker. Nesse contexto, relatório da organização ressalta que a “perspectiva de líderes e especialistas mostra profunda preocupação e metade dos entrevistados antecipa um mundo turbulento ou tempestuoso nos próximos dois anos”.
Para a economista-chefe do ING, Marieke Blom, o tom dos participantes este ano deve ser similar ao de 2025, quando houve otimismo com a economia americana e pessimismo com a Europa. A diferença agora é que os europeus estão buscando avançar em outras frentes, como nos acordos comerciais. Exemplo disso é o acordo fechado com o Mercosul neste sábado. Em outro desdobramento recente, a Alemanha se comprometeu a gastar mais com defesa e na economia em geral, o que pode estimular a atividade do maior mercado europeu.
Economistas-chefes ouvidos pelo fórum ressaltam que o PIB mundial tem mostrado resistência, deve crescer na casa dos 3% em 2026, mas cresceu a preocupação com a situação fiscal de países desenvolvidos e emergentes, a ponto de entrar no radar desses profissionais a chance de crise da dívida soberana. Dos entrevistados, perto de 30% não descartam uma crise da dívida em mercados desenvolvidos em 12 meses, enquanto nos emergentes esse porcentual sobe para 47%.
Para os estrategistas da corretora Wedbush, forte em tecnologia, a IA terá papel-chave nas conversas em Davos este ano, nas públicas e nas reuniões a portas fechadas. “Em um cenário geopolítico tenso, há uma corrida armamentista em andamento entre os EUA e a China em torno da tecnologia de IA, com os EUA liderando a China pela primeira vez em 30 anos no campo tecnológico”, comentam em relatório falando da perspectiva para o fórum. Em tempos de multilateralismo em baixa, piora geopolítica e de restrições comerciais, o tema principal do Fórum este ano é “Um Espírito de Diálogo”. “O diálogo não é um luxo em tempos de incerteza; é uma necessidade urgente”, disse Borge.
Fonte: Estadão
