Tarifas de Trump desencadeiam queda global de ações e dólar
Marc Jones
Londres | Reuters
As ações mundiais, o dólar e o petróleo despencaram nesta quinta-feira (3), à medida que as novas tarifas comerciais dos EUA, impostas por Donald Trump, geraram temores generalizados de uma recessão global e levaram investidores a buscar títulos seguros e o iene.
A nova tarifa básica de 10% sobre bens importados, além de algumas taxas adicionais “recíprocas” sobre dezenas de países que Trump afirmou terem barreiras comerciais injustas, deixou os comerciantes claramente abalados por sua severidade.
No Brasil, o dólar fechou em forte queda de 1,17% , cotado a R$ 5,629, menor valor desde 16 de outubro do ano passado, quando encerrou em R$ 5,622.
A Bolsa brasileira, no entanto, descolou do exterior e rondou a estabilidade. Ao final do pregão, o Ibovespa marcou variação negativa de 0,03%, a 131.140 pontos.
Na Europa, o índice pan-europeu STOXX 600 cedeu 2,7%, retornando ao seu nível mais baixo desde janeiro. Os índices de referência da Alemanha, da Itália e da França fecharam com queda superior a 3%, com as ações italianas e francesas registrando a maior baixa em mais de dois anos.
Nos EUA, índices acionários de Wall Street afundaram por causa dos temores de uma recessão na economia. O Dow Jones caiu 3,98%, a 40.545 pontos. O S&P 500 tombou 4,84%, a 5.396 pontos, enquanto o Nasdaq Composite derreteu 5,97%, a 16.550 pontos. Foi o pior dia desde a crise do coronavírus de 2020.
Nove dos 11 setores do S&P 500 estiveram em território negativo, com 320 ações em queda no dia. O índice de volatilidade CBOE .VIX, conhecido como o medidor de medo de Wall Street, atingiu uma alta de três semanas em 30,02 pontos.
No exterior, o índice do dólar DXY, que mede o desempenho da moeda norte-americana frente a uma cesta de seis divisas fortes, caía 1,78%, a 101,96, às 18h30.
A Apple afundou 9,25%, atingida por uma tarifa agregada de 54% sobre a China —a base de grande parte de sua fabricação. A Microsoft recuou 2,36% e a Nvidia caiu 7,82%.
Na Ásia, onde algumas das tarifas mais severas foram anunciadas, a Bolsa de Tóquio caiu 2,77%, fechando a 34.735 pontos, enfrentando sua pior semana em quase dois anos.
Já na China, a queda foi menor, com o índice CSI300, que reúne as maiores companhias de Xangai e Shenzhen, desvalorizando 0,59%, e o SSEC, de Xangai, retrocedendo 0,24%.
No Vietnã, atingido com tarifas de 46%, ações despencaram 6,7% em resposta.
O impacto sentido por principais centros de produção, como Vietnã, Indonésia e China, levou ações de empresas como Nike e Ralph Lauren caírem, respectivamente, 11% e 12%.
Grandes bancos, como Citigroup e Bank of America, que são sensíveis aos riscos econômicos, caíram mais de 8% cada. O JPMorgan Chase perdeu 4,5%.
Analistas do JPMorgan disseram que as tarifas eram “significativamente mais altas do que o pior cenário realista” que havia sido previsto.
A agência de classificação de crédito Fitch alertou que elas eram um “divisor de águas” tanto para a economia dos EUA quanto para a global, enquanto o Deutsche Bank as chamou de um momento “único na vida” que poderia facilmente reduzir entre 1% e 1,5% o crescimento dos EUA este ano.
“Muitos países provavelmente acabarão em recessão”, disse Olu Sonola, da Fitch. “Você pode descartar a maioria das previsões se essa tarifa permanecer por um período prolongado.”
A corrida por títulos do governo ultra-seguros que oferecem uma renda garantida fez os rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA caírem para abaixo de 4% pela primeira vez desde outubro de 2024 e o rendimento de 10 anos da Alemanha, a taxa de referência de empréstimos europeia, caiu 8,5 pontos base para 2,64%.
As novas tarifas abrangentes elevarão os impostos efetivos sobre importações na maior economia do mundo aos níveis mais altos em um século. Se elas desencadearem recessões, os bancos centrais ao redor do mundo provavelmente reduzirão as taxas de juros, o que beneficia os títulos.
PETRÓLEO EM QUEDA; OURO EM ALTA
O petróleo também começou o dia em queda. O Brent, referência global do petróleo, caiu 6%, para US$ 70,42 (R$ 393,48) por barril e firmemente a caminho de seu pior dia do ano até agora. Já o petróleo WTI (West Texas Intermediate), usado nos EUA, caiu 6,5%, a US$ 67,03 (R$ 375,01) por barril.
As ações de petróleo, incluindo Exxon Mobil e Chevron, caíram cerca de 3,5% cada
O ouro atingiu um recorde acima de US$ 3.160 (R$ 17,99 mil) por onça antes de perder força.
Entre as moedas, o iene japonês saltou mais de 1,5% para 147,01 por dólar, o euro subiu 2%, a 1,10 por US$ 1, e o franco suíço, outro refúgio tradicional, tocou seu nível mais forte em quatro meses.
A China manteve sua moeda relativamente estável, contendo a queda do yuan em cerca de 0,4%, apesar das tarifas totais acima de 50% sobre as exportações chinesas e o impacto no Vietnã, visto como fechando uma rota alternativa popular.
Tarifas impressionantes em uma base país a país gritam ‘tática de negociação’, o que manterá os mercados em alerta no futuro próximo”, afirmou Adam Hetts, chefe global de multiativos e gerente de portfólio da Janus Henderson Investors.
“O foco principal nos próximos dias deve ser claramente a China”, comentou George Saravelos, estrategista do Deutsche Bank.
“Quão disposta estará a China a esperar por negociações comerciais… ou a absorver isso?”, analisou. “Ou tentará ‘exportar’ o choque… via desvalorização do yuan.”
Fonte: Folha de São Paulo
