IA deve ser o maior boom de investimento da história dos EUA
Por Fernando Dantas
Cálculos do economista Stijn Van Nieuwerburgh, da Columbia Business School, indicam que o investimento relacionado à inteligência artificial nos Estados Unidos no período 2025-2032 será de US$ 10,3 trilhões, o que significa 3,63% do PIB americano por ano.
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Isso se compara, por exemplo, com o ciclo de investimento nas ferrovias, entre 1870 e 1890, que absorveu 2,24% do PIB ao ano; ou com o boom de telecomunicações e fibra ótica de 1966-2003, com 1,13%. Na verdade, o ciclo de investimentos relativo à IA, se confirmado, será o maior da história dos EUA, superando o de canais, estradas de ferro, eletrificação, rodovias e telecomunicações.
Esses números constam do recente paper “Financing the AI Buildout” (“Financiando a Expansão da IA”), de Van Nieuwerburgh. O trabalho foi publicado pelo think-tank Brookings.
Como explica o autor, entregar e testar novos modelos de AI não é uma questão apenas de software, mas envolve pesadamente capital físico: grandes quantidades de chips especializados, eletricidade, resfriamento, equipamentos de rede e capacidade sob medida de data centers. O boom da IA, portanto, é um ciclo de investimento em infraestrutura de larga escala.
O problema, nota Van Nieuwerburgh, é que o caixa das próprias empresas já não basta. Os investimentos somados de Oracle, Microsoft, Amazon, Meta e Alphabet passaram de US$ 97 bilhões em 2020 para mais de US$ 400 bilhões em 2025, e devem superar US$ 800 bilhões em 2026. Pela primeira vez, vão ultrapassar a geração de caixa operacional das cinco empresas.
O ganho da Meta é outro: preservar no balanço um perfil leve em termos de ativos. Pelas regras contábeis americanas, nem os compromissos futuros de aluguel nem a garantia de valor residual – se a Meta encerrar o leasing de um ou alguns dos “campus” de IA da Hyperion, o ativo vai à venda, mas a empresa garante um patamar mínimo de preço – oferecida pela Meta aparecem em seu balanço, embora um dos dois vá necessariamente se materializar.
A Moody’s estima que as hyperscalers (grandes empresas de tecnologia que operam infraestruturas de data centers em escala maciça e global para treinar, hospedar e executar modelos de IA pesados) têm cerca de US$ 970 bilhões em compromissos de arrendamento, dos quais US$ 660 bilhões ainda fora dos balanços.
O ponto central do paper de Van Nieuwerburghé que essas estruturas transformam o risco, mas não o eliminam. O pesquisador aponta três vulnerabilidades principais: a concentração num punhado de hyperscalers do risco dos datacenters e investidores em infraestrutura (“tenant risk”, literalmente, “risco do locatário”), a obsolescência rápida dos equipamentos e os gargalos de execução, sobretudo de energia.
Ainda assim, o economista aponta na conclusão do trabalho que “seria prematuro concluir que a infraestrutura de IA já representa um risco sistêmico comparável aos booms de crédito anteriores”. As questões mais relevantes, para ele, são determinar a exposição de diferentes tipos de participantes da arquitetura financeira (de bancos e seguradoras a veículos de securitização), a concentração de compromissos em cada locatário, e a sensibilidade das receitas às projeções de demanda por IA. E, de forma especial, seria importante mapear como perdas poderiam se propagar diante de um declínio simultâneo de utilização da infraestrutura, valores de colateral e capacidade de refinanciamento.
Fonte: Estadão
