Canadá desafia Trump: veja como fica a situação após retaliação entrar em vigor

O Canadá retaliou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nesta terça-feira, impondo tarifas sobre cerca de US$ 20 bilhões em produtos dos EUA, em resposta à última rodada de tarifas impostas ao Canadá.

O desfecho pode ter repercussões muito além do Canadá, mostrando a outros governos que um aliado menor dos EUA é capaz de resistir à pressão econômica de Trump.

O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, afirma que as exigências dos EUA poderiam esvaziar setores-chave da economia canadense e limitar a independência do país, enquanto as ameaças de Trump à soberania canadense mobilizaram a opinião pública a seu favor.

“Carney e o Canadá se tornaram símbolos de resistência a ele”, disse o historiador canadense Robert Bothwell. “E o que ele vai querer fazer é dar um exemplo com Carney e o Canadá e, teoricamente, aterrorizar todos os outros, ao mesmo tempo em que, na verdade, mostra a eles que precisam se distanciar ainda mais dos Estados Unidos.”

As tarifas atingem centenas de produtos americanos, incluindo aço, alumínio, queijo, eletrodomésticos, roupas, cosméticos e equipamentos agrícolas, com alíquotas de 15%, 25% ou 50%.

O Canadá retalia com tarifas sobre centenas de produtos norte-americanos

O Canadá afirma que suas tarifas correspondem às de Washington, dólar por dólar e alíquota por alíquota. Elas entram em vigor à 00h01 desta terça, por meio de uma medida executiva conhecida como “ordem do Conselho”, e abrangem cerca de US$ 20 bilhões em produtos norte-americanos, o que representa aproximadamente 6% dos US$ 333,6 bilhões que os Estados Unidos exportaram para o Canadá no ano passado.

A RBC Economics, braço de pesquisa do Royal Bank of Canada, afirmou que é improvável que as medidas prejudiquem o crescimento geral dos EUA, mas podem afetar duramente algumas empresas.

O Canadá já foi além das tarifas de outras maneiras. Oito de suas dez províncias continuam a restringir ou proibir a venda de bebidas alcoólicas dos EUA. O Distilled Spirits Council afirma que as exportações de bebidas destiladas dos EUA para o Canadá caíram mais de 70% em relação ao ano anterior após a entrada em vigor dessas restrições.

Trump ameaça punir o Canadá ainda mais

Desde que as negociações comerciais entre o Canadá e os EUA fracassaram em 21 de agosto, Trump e seu governo lançaram uma enxurrada de tarifas, ameaças e ataques pessoais, retratando o Canadá como fraco e dependente.

Na segunda-feira, 7, Trump ameaçou proibir a venda de aeronaves da canadense Bombardier, a menos que a empresa passe a fabricar aviões nos Estados Unidos.

“CHEGA DE VENDER PRODUTOS DA BOMBARDIER NOS ESTADOS UNIDOS! Os produtos deles não são bons o suficiente!”, postou Trump no Truth Social. “Se querem nosso mercado, precisam fabricar aqui e parar de tratar os Estados Unidos como um ‘cofrinho’.”

Flavio Volpe, presidente da APMA Canada, uma associação do setor manufatureiro, respondeu no X que a Bombardier utiliza motores a jato da GE e da Honeywell, fabricados nos EUA, e emprega cerca de 3.000 trabalhadores americanos. Trump já havia alertado que a economia do Canadá poderia entrar em colapso se Carney continuasse a tratá-lo como “o inimigo” e ameaçou com consequências “piores do que qualquer coisa que já tenha acontecido a um político canadense”.

O representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, ameaçou que Washington poderia proibir totalmente alguns produtos canadenses em resposta.

Trump chegou a renomear o Lago Ontário como “Lago América”, uma mudança ignorada e ridicularizada no Canadá. O Google e a Apple cederam à pressão de Trump e alteraram seus mapas para os usuários dos EUA. Nesta segunda, o presidente americano publicou nas redes sociais um mapa da América do Norte coberto pela bandeira dos EUA.

Depois de renomear um golfo e um lago, talvez o próximo passo para ele seja renomear um rio?”, ironizou Daniel Béland, cientista político da Universidade McGill.

A pressão de Trump está intensificando a resistência no Canadá

A guerra comercial de Trump e suas repetidas declarações de que transformaria o Canadá no 51º estado alimentaram a indignação e mobilizaram apoio a Carney. Os canadenses reduziram drasticamente as viagens aos Estados Unidos e boicotaram produtos norte-americanos.

A atual guerra comercial teve início depois que Trump voltou ao cargo e impôs uma série de tarifas sobre produtos canadenses, apesar de ter negociado e elogiado repetidamente o acordo comercial norte-americano durante seu primeiro mandato. Muitas dessas tarifas violam o pacto.

A ruptura é especialmente marcante porque os países há muito mantêm uma das relações mais estreitas do mundo, com economias profundamente integradas, cooperação estreita em defesa e segurança, vastos laços culturais e, antes da deterioração das relações, cerca de 400 mil pessoas cruzando a fronteira todos os dias.

Carney afirmou que as negociações poderão ser retomadas quando os americanos “pararem de fazer memes, pararem de fazer alusões maliciosas, pararem de tentar parecer durões” e passarem a levar as coisas a sério. Até o momento, a pressão de Trump surtiu efeito contrário no Canadá, fortalecendo o apoio a Carney em vez de forçar concessões.


Fonte: Estadão

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