Governança preventiva’ não elimina o risco, mas pode frear novas RJs de varejistas, dizem analistas
Os pedidos de recuperação judicial (RJ) de Casas Bahia e Lojas Marabraz encaminhados no fim de semana (15 e 16 de agosto) acrescentam um capítulo à série de grandes grupos varejistas que têm recorrido a esse mecanismo de reestruturação para evitar falência no Brasil.
Embora fatores relacionados a modelo de gestão e ao cenário econômico desfavorável, com queda de adesão às lojas físicas e endividamento impulsionado por juros altos País, pressionem o aumento desses casos, analistas ouvidos pelo Estadão acreditam que recorrer à chamada “governança preventiva” pode ser um recurso para ajudar a frear a onda de RJs.
A visão é apresentada pela coordenadora do Centro de Estudos em Ética, Transparência, Integridade e Compliance da Fundação Getulio Vargas (FGVethics), Lígia Maura Costa. Ela explica que esse tipo de perspectiva consiste em uma governança orientada à prevenção de crises, com supervisão do conselho sobre endividamento, com indicadores, controle sobre a liquidez, monitoramento dos riscos e sustentabilidade do modelo de negócio.
“No varejo, o controle deve ir além de acompanhar a expansão e fazer exercícios de previsão de como a empresa reagiria à queda do consumo, à alta dos juros e à redução das margens. A ‘governança preventiva’ não elimina o risco de crises, mas permite identificar o risco em tempo e com alternativas para evitar que cheguem a uma recuperação judicial.”
Ela pondera que a estratégia por si só tem efeito prejudicado sem um cenário econômico mais estável. “A economia brasileira tem também impulsionado essa onda de recuperações judiciais. Somente melhores práticas e a ‘governança preventiva’ não solucionarão o problema sozinhas, sem um ambiente econômico mais favorável ao consumo, ao crédito e à atividade empresarial.”
O economista Eduardo Menicucci, professor associado da Fundação Dom Cabral (FDC), tem análise semelhante. Considerando como “assustador e preocupante” o alto volume de pedidos de recuperação judicial no varejo, ele avalia que está havendo um misto entre as questões estruturais das empresas e o contexto econômico do Custo Brasil pressionando varejistas. O cenário, segundo ele, exige o monitoramento preventivo e constante de indicadores de endividamento, como o índice de cobertura de juros e a relação de dívida líquida/Ebitda. “Esses indicadores devem ser monitorados constantemente. Se eles sinalizarem um crescimento, deve-se tomar antecipadamente alguma medida para reenquadrá-los nos parâmetros (adequados). (Acompanhar) os indicadores de endividamento, o atraso nas contas a receber e o estoque são medidas de governança que vão auxiliar as empresas a evitar uma recuperação judicial.”
Problema de governança no cenário de recuperações
Professor do MBA em Governança, Riscos e Compliance da Trevisan Escola de Negócios, Luciano Malara considera que a onda de recuperações judiciais no varejo brasileiro reflete, em boa parte, um problema de governança, e não apenas a conjuntura econômica do País. Para ele, as empresas que investiram em maturidade de governança têm conseguido negociar suas dívidas de forma extrajudicial, evitando o desgaste, o custo e o risco reputacional de um processo de recuperação judicial.
Por isso, ele avalia que a principal prática de governança que pode evitar que uma crise financeira em uma empresa de varejo se transforme em recuperação judicial é ter um sistema estruturado de gestão de riscos, integrado ao planejamento financeiro e à governança corporativa. Isso inclui não só o monitoramento antecipado de indicadores de alerta, mas também envolve engajamento do conselho e práticas transparentes para o mercado.
(É necessário) ter um conselho de administração atuante e independente, que realmente confrontem a diretoria executiva quando os números não fecham com o discurso apresentado. Outra frente está no compliance financeiro e na transparência na divulgação de informações, tanto internamente quanto para o mercado. Isso reduz a assimetria de informação entre gestão, conselho e credores, e permite que a renegociação de dívidas aconteça de forma preventiva, antes que a situação se torne insustentável.” As ações, para o especialista, podem colaborar para o esfriamento da série de recuperações ainda que no médio prazo. “Não vejo isso como algo capaz de frear essa onda de forma imediata, mas é uma mudança estrutural que, se for adotada de forma mais ampla pelo setor, pode reduzir bastante a recorrência desses casos nos próximos ciclos econômicos.”
Fonte: Estadão
