Mercado vê ‘guerra fria’ entre Durigan e Moretti, que apontam caminhos distintos para ajuste fiscal

Os ministérios da Fazenda e do Planejamento têm dado sinais divergentes sobre o caminho para ajustar as contas públicas em um eventual quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

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Em conversas com investidores do mercado financeiro, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, tem indicado a possibilidade de reduzir o limite de despesas do arcabouço fiscal de 2,5% para 1,5% ao ano. Já o ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, falou ao Estadão que não adianta ter regras mais rígidas e que o governo precisa de mais instrumentos de gestão fiscal para cumprir as metas.

Nos bastidores, a visão de interlocutores do mercado financeiro ouvidos pela reportagem é de que há uma “guerra fria” entre os dois ministros, em busca de protagonismo em um próximo governo petista.

Enquanto Moretti tem, segundo esses interlocutores, um perfil mais técnico e aberto ao diálogo, Durigan é visto mais como um defensor da gestão do ex-ministro Fernando Haddad à frente da Fazenda, com um discurso praticamente pronto em reuniões com integrantes da Faria Lima. Procurados, os ministros negaram ambiente de disputa e disseram que trabalham em parceria e cooperação desde antes de assumirem os atuais postos (veja abaixo a íntegra dos posicionamentos).

As investidas dos líderes da equipe econômica no mercado tentam “apagar incêndio” após declarações doex-presidente da Petrobras e coordenador do programa de governo de Lula, Sergio Gabrielli,que causaram temor na Faria Lima. A ideia é passar ao mercado a percepção de que o governo está ciente do desafio fiscal imposto pelo crescimento das despesas públicas e irá apresentar soluções em um eventual quarto mandato de Lula. Investidores que falaram ao Estadão sob a condição de anonimato avaliam, porém, que ambas as propostas dos ministros são insuficientes para estabilizar a dívida pública e carecem de detalhes.

A redução do teto para 1,5% ao ano, descontada a inflação, reduziria também a indexação do salário mínimo, mas só essa medida é vista por analistas como tímida para que o governo reequilibre as contas públicas. Já a ideia de ter mais instrumentos para gerir o Orçamento foi recebida como vaga demais até o momento para passar confiança.

Por trás da disputa estaria o ex-ministro Fernando Haddad, que concorre à eleição para governador em São Paulo. Em caso de derrota no pleito, na visão de pessoas próximas, Haddad poderia assumir a Casa Civil do governo Lula e tentar emplacar a permanência de Durigan na Fazenda. Assim, ele teria influência sobre as duas principais pastas do próximo mandato, tornando-se o homem forte e sucessor natural de Lula para a disputa em 2030.

Moretti, por outro lado, é economista com forte ligação ao PT e atuou por muitos anos como assessor de Economia e Orçamento do partido no Senado. Antes de assumir o Planejamento, ocupou cargos no segundo e terceiro escalão nas primeiras gestões Lula e de Dilma Rousseff.

Como Secretário Especial de Análise Governamental no atual mandato de Lula, teve papel central na análise dos projetos que foram encaminhados pela Fazenda à Casa Civil. A proximidade com a Presidência – a Casa Civil se hospeda literalmente em um andar no Palácio do Planalto em Brasília – também fez com que ele desse suporte técnico para alterações ou vetos de propostas fiscais mais rígidas que chegaram a ser encaminhas por Haddad e Durigan.

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Moretti, dessa forma, teria uma respaldo mais amplo no PT e já foi chamado de “mágico” por Lula por conseguir recursos para gastos públicos. Essa proximidade é vista como sinal de poder político pelo mercado financeiro, mas os investidores também temem que ele faça concessões ao presidente sem se contrapor a ideias mais heterodoxas.

O vencedor dessa “disputa velada” será decidido por Lula, em caso de reeleição. Até aqui, ele não deu sinais claros sobre quem será o homem forte da economia e que rumo irá tomar na política fiscal. O mercado, por seu lado, desconfia de ambos e não acredita em reequilíbrio das contas em um quarto mandato.

O que diz Durigan

“Os ministros Dario Durigan (Fazenda) e Bruno Moretti (Planejamento) trabalham em parceria desde antes de assumirem os atuais postos. Como ministros, estão alinhados na condução da economia brasileira, sempre com o objetivo de melhor servir a população. Qualquer informação diferente é inverídica.”

O que diz Moretti “O ministro reforça que tem uma relação de longa data com o ministro Dario Durigan. Essa relação sempre foi e continua sendo pautada pela cooperação, respeito e amizade. Desde 2023, sob a liderança do presidente Lula, eles vêm trabalhando em conjunto a favor da agenda de consolidação fiscal, progressividade tributária e das políticas indutoras do desenvolvimento socioeconômico do País. Esse trabalho prosseguirá nesse mesmo espírito de colaboração”.


Fonte: Estadão

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