O mercado vai se ajeitar diante do surgimento de milhares de associações e cooperativas de seguros
Tem gente falando em briga de morte, vaticinando vinganças terríveis ou apontando a bancada no Congresso Federal como arma infalível para as APPs (Associações de Proteção Patrimonial Mutualistas) tomarem conta do mercado. Não vai acontecer nada disso.
Como sempre, em situações como essa, o mercado vai se acertar. Tem espaço para todos e as tipicidades de cada um permitirão que desenvolvam seus negócios.
A regulamentação das cooperativas de seguros e das APPs é um passo importante para a consolidação do setor e para o aumento da oferta de produtos de proteção para o consumidor. Fazia muitos anos que a roda estava quadrada, com associações de proteção oferecendo seus produtos à margem da lei. Mas, se elas faziam isso e tinham sucesso, é porque o mercado estava carente de produtos que atendessem às necessidades de parte da população.
Em negócio não existe vácuo. Se milhares de associações foram abertas pelo interior do país, é porque tinha demanda. Essencialmente, elas ofereciam proteção para veículos, a maioria deles modelos mais antigos.
O quadro não é novo. Durante anos o Ministério Público atuou no sentido de inibir o funcionamento das associações de proteção patrimonial, todavia, com pouco sucesso. E a razão para isso é simples: havia mercado para os produtos oferecidos. As garantias disponibilizadas pelas APPs atendiam às necessidades dos consumidores, especialmente dos proprietários de veículos mais rodados.
Muitas seguradoras não atuam com este público e as que o fazem cobram preços cuja relação custo/benefício não compensa. Ao oferecer proteção com produtos mais baratos, as APPs encontraram um grande filão a ser explorado e passaram a fazer isso com bastante sucesso. Em poucos anos, elas estavam atuando em vários Estados e crescendo continuamente.
Como sua operação era fora da lei, não havia controle sobre elas, o que permitia que organizações pouco sérias entrassem no mercado para aplicar golpes nos consumidores. A regulamentação das APPs e das cooperativas de seguros veio preencher uma lacuna legal que visa colocar ordem na casa. Com regras claras, fiscalização e controle eficientes, as associações desonestas ou sem capacidade econômica devem sair do mercado, o que é positivo para todos. As seguradoras deixam de sofrer uma concorrência desleal e as associações de proteção patrimonial sérias passam a ter o aval da autoridade reguladora.
Daí para frente vale a competência para enfrentar a concorrência. É pouco provável que surja uma competição acirrada para a proteção de veículos mais antigos, da mesma forma que as APPs não devem entrar no segmento de veículos mais sofisticados. Além disso, elas devem ter atuação regional, o que lhes permite estarem presentes em locais aonde as seguradoras não chegam.
Com uma estrutura de custos diferente das seguradoras, seus produtos, mais simples e por isso mais em conta, podem atender a um público que não tem recursos para contratar os seguros convencionais. De outro lado, as seguradoras seguem aprimorando sua operação. Neste cenário, há espaço para todos se darem bem, especialmente o consumidor.
Fonte: Estadão
