Por que o Brasil não consegue atrair mais investimentos em infraestrutura
O maior paradoxo da infraestrutura brasileiranão está nos canteiros de obras, mas nos investimentos que não se transformam em projetos. Fundos soberanos globais administram mais de US$ 16 trilhões e buscam retornos previsíveis de longo prazo. O Brasil, segundo maior destino de investimento estrangeiro direto em 2025, deveria ser o destino natural desse capital. Não é.
Capital existe; faltam projetos capazes de recebê-lo. Em 2024, os acordos de project finance na América Latina caíram 43% em valor, refletindo a escassez de projetos bancáveis: estruturados técnica, jurídica e financeiramente para atrair o mercado sem dependência direta do Estado. O Brasil tornou-se eficiente em renovar ativos existentes. O próximo ciclo exige capacidade de estruturar o novo.
Hoje, o País opera em três velocidades. Energia e telecomunicações avançam com maior estabilidade regulatória e previsibilidade. Saneamento e rodovias prometem mais do que entregam: o marco do saneamento destravou investimentos, mas a fragmentação municipal ainda limita a execução. Já hidrovias, ferrovias e mobilidade seguem em ritmo lento. Embora o Brasil tenha cerca de 42 mil km de vias navegáveis viáveis, o transporte hidroviário responde por apenas 4,3% das cargas nacionais.
O problema central é institucional. Existe um abismo entre a sofisticação federal e a realidade local. Segundo a Confederação Nacional de Municípios (CNM), mais da metade dos municípios cogitou parcerias público-privadas (PPPs), mas muitos não têm estrutura técnica nem sabem onde buscar apoio. O resultado aparece em projetos paralisados, baixa presença privada e contratos frágeis. Quando o gestor atua como executor da obra, e não como regulador e fiscal do serviço, a concessão perde eficiência e legitimidade.
A infraestrutura reflete quem a governa. Há gestores que enxergam a parceria privada como tabu ideológico; outros recorrem à PPP apenas por necessidade fiscal, priorizando a obra em vez da qualidade do serviço. O desafio contemporâneo exige outro perfil: o estrategista capaz de estruturar contratos sustentáveis por décadas. Superar esse ciclo demanda três movimentos centrais: mapear riscos socioambientais antes dos editais; fortalecer mecanismos garantidores para reduzir o custo do capital; e atualizar contratos para a economia digital e energética. Os governantes eleitos em 2026 herdarão um país que aprendeu a relicitar ativos, mas ainda precisa aprender a construir projetos greenfield em ambientes complexos. Quem compreender isso ajudará a construir o futuro; quem não compreender continuará apenas inaugurando o passado.
Fonte: Estadão
