China desafia lógica da corrida da IA

Com 1,4 bilhão de pessoas, PIB (Produto Interno Bruto) próximo de US$ 18 trilhões (R$ 91,98 trilhões) e domínio em áreas como veículos elétricos, baterias e energia solar, a China ocupa menos espaço no nosso noticiário econômico do que deveria. Costumo repetir que se inteirar do que aconteceu de madrugada nos mercados asiáticos deveria ser uma das primeiras tarefas dos investidores que buscam oportunidades na Bolsa brasileira.

Na última sexta-feira (17), quando as Bolsas asiáticas voltaram a desabar, com o índice Shenzhen (China) recuando 5,25%, Nikkei (Japão) perdendo 4,03% e Taiwan despencando 6,47%, um discurso de cerca de 20 minutos em Xangai se tornou um documento essencial para quem quer entender os próximos passos da economia global.

O líder chinês, Xi Jinping, abriu a Conferência Mundial de Inteligência Artificial 2026 com uma mensagem que contrariou grande parte do mercado. Enquanto investidores esperavam sinais de uma aceleração da corrida pela IA, novos estímulos ao setor ou uma estratégia mais agressiva para criar campeões nacionais, Xi falou na direção quase oposta: abertura, cooperação e compartilhamento.

O ponto central do discurso foi justamente o código aberto, temido pelos monopólios. “Devemos aproveitar esta rara oportunidade histórica para incentivar o código aberto, a abertura, a colaboração e o compartilhamento”, afirmou Xi. E complementou: “A IA não deve ser uma apresentação solo de um único país, mas uma sinfonia de cooperação internacional”.

A fala desafia a lógica da corrida de cavalos, que sustentou boa parte da valorização das empresas ligadas à inteligência artificial nos últimos anos. A tese dominante do chamado rally da tecnologia é baseada na escassez: poucos grupos conseguirão controlar os melhores modelos, os chips mais avançados e a infraestrutura necessária.

Na prática, Pequim sinalizou que vai estimular a redução da barreira de entrada e pode diminuir justamente o valor da escassez, que hoje sustenta alguns dos maiores valuations do mercado.

Aumentam as chances de a inteligência artificial seguir menos o caminho da corrida espacial e mais o caminho da internet. E quem estava no mercado no ano 2000 lembra o que foi a bolha da internet, ou das “.com”. Não digo que a história esteja se repetindo, mas começa a rimar. Durante anos, a China foi vista como um país que copiava tecnologias desenvolvidas no Ocidente. Hoje, o país lidera cadeias estratégicas da economia global. Concentra cerca de 80% da capacidade mundial de fabricação de painéis fotovoltaicos, segundo a AIE (Agência Internacional de Energia). Nas baterias para veículos elétricos, a China domina mais de 70% da produção global.

O caso DeepSeek mostrou ao mercado que modelos competitivos podem surgir com abordagem mais aberta e alta eficiência. A reação das Bolsas nesta sexta-feira mostra que investidores entenderam que talvez a maior ameaça às empresas que lideram a corrida da IA não seja uma concorrente maior, mas uma tecnologia mais barata e disponível. A China não parece estar abandonando a disputa pela inteligência artificial, mas acaba de desafiar a lógica dessa corrida.


Fonte: Folha de São Paulo

Traduzir »