Tarifaço de Trump confirma o diagnóstico de que foi uma decisão sem fundamentação técnica
O governo Trump confirmou na quarta-feira, 15, o tarifaço de 25% sobre as exportações do Brasil aos Estados Unidos.
Duas circunstâncias chamam a atenção. Primeira, o fato de ter sido adotado contra um país deficitário em comércio exterior com os Estados Unidos, ou seja, que importa mais do que exporta.
Por aí se vê que essa troca de mercadorias em vez de prejudicar, beneficia a balança comercial dos Estados Unidos.
Segunda circunstância, a definição de uma longa lista de exceções ao que pretende ser uma represália à política do Brasil.
São aspectos que confirmam o diagnóstico de que foi uma decisão destituída de fundamentação técnica. O comunicado do USTR, o organismo ligado à presidência dos Estados Unidos, que dirigiu o processo, deixa em aberto a possibilidade de revisão dessas exigências, desde que o governo brasileiro faça concessões, que provavelmente não estão concentradas na área comercial. A aceitação ou não dessas pretendidas concessões também deve ter natureza política. A primeira reação do presidente Lula foi acenar com a aplicação da lei de reciprocidade, o que implicaria responder com represálias.
É também o que os empresários brasileiros mais prejudicados reivindicam, sob o argumento de que seria a única maneira capaz de sensibilizar o governo norte-americano em direção à revogação ou ao abrandamento dessas sanções.
Mas essa pode não ser a melhor opção. Apesar da “boa química”, as relações entre os presidentes Lula e Trump estão prejudicadas por cargas ideológicas antagônicas.
Do ponto de vista macroeconômico, o tarifaço não parece causar consequências graves. A reação moderada do mercado financeiro, principalmente a do comportamento do câmbio e da Bolsa, confirma essa impressão.
Em parte, as empresas brasileiras mais prejudicadas esperavam pela pancada e trataram de apará-la previamente. Por sua vez, esta pode ser uma boa oportunidade para aumentar a diversificação do mercado externo do Brasil e, assim, reduzir a dependência do mercado dos Estados Unidos.
Para uma reação mais realista, a questão central continua a ser o excessivo protecionismo do Brasil ao setor produtivo local – e este não é um vício apenas dos governos de esquerda.
Proteção demais tira capacidade imunológica de qualquer organismo. E, do ponto de vista econômico, tira capacidade de negociação. O governo brasileiro não controla as idiossincrasias do governo dos Estados Unidos, mas pode contribuir para o aumento da competitividade do setor produtivo brasileiro.
Fonte: Estadão
