Indústria ainda calcula prejuízo de série de tarifas dos EUA, mas vê alternativas em outros países
São Paulo e Brasília
Lidando há um ano com as tarifas comerciais impostas pelo governo dos Estados Unidos, diversos setores da indústria brasileira ainda contabilizam o tamanho do impacto das decisões do presidente Donald Trump no dia a dia das empresas.
É o caso de indústrias que exportam produtos em grandes volumes como aço e alumínio, couro e calçados, móveis, têxtil, tabaco, armas e madeiras.
Essas empresas foram atingidas em momentos distintos: inicialmente, em abril de 2025, Trump submeteu o Brasil a uma tarifa mínima de 10% sobre produtos exportados com base no IEEPA (International Emergency Economic Powers Act).
Diferente do restante da pauta exportadora atingida pelas tarifas, aço e alumínio seguem uma linha do tempo à parte. Desde junho de 2025, os dois metais pagam uma tarifa setorial de 50% com base na Seção 232 —mecanismo apoiado na Lei de Expansão Comercial de 1962, usado por motivos de segurança nacional.
Além dos 10% em vigor desde abril do ano passado, em julho Trump anunciou uma sobretaxa adicional de 40% sobre outros produtos brasileiros. Quando a Suprema Corte dos EUA derrubou, em fevereiro de 2026, as tarifas amparadas na IEEPA, aço e alumínio não foram afetados justamente por terem bases distintas de aplicação das regras.
Atualmente, duas seções aparecem com mais frequência: a 232, que dá ao presidente o poder de taxar setores específicos por motivos de segurança nacional, e a 122, aplicada desde fevereiro deste ano e que permite tarifas de até 15% para conter desequilíbrios na balança comercial.
A decisão do governo Trump prevista para esta quarta-feira (15) avalia a possível aplicação da Seção 301, que permite ao USTR (Representante de Comércio dos EUA) investigar se um país adota práticas comerciais consideradas desleais. No caso brasileiro, a investigação mira pontos como a tarifação do etanol, as regras de meios de pagamentos como o Pix, uso da propriedade intelectual e o combate ao desmatamento ilegal.
A indústria do aço enviou o equivalente a US$ 3,8 bilhões em produtos aos Estados Unidos em 2023 e vinha perdendo espaço na indústria norte-americana antes da chegada de Trump. Em 2024 foram exportados US$ 2,8 bilhões (queda de 26,1%) e, em 2025, US$ 2,6 bilhões. De janeiro a maio deste ano, a indústria do aço enviou US$ 977,7 milhões em produtos, segundo dados da ApexBrasil.
O Brasil é o segundo maior exportador de aço aos EUA, concentrado em produtos primários de baixo valor agregado —e que estão mais expostos às aplicações de tarifas dos norte-americanos.
“A expectativa é ser incluído na lista de isenções”, diz Fausto Cançado, presidente do Sindifer (Sindicato das Indústrias do Ferro) de Minas Gerais, ecoando uma expectativa compartilhada com outros setores.
Numa conta preliminar, o Sindifer estima que 55% das fábricas brasileiras de ferro-gusa (matéria-prima do aço) podem parar de forma definitiva ou temporária se as novas tarifas forem aplicadas.
No setor de máquinas e equipamentos, a queda nas exportações aos EUA chegou a 9,1% ano passado. Por outro lado, a Abimaq, associação do setor, reportou um aumento expressivo nas vendas para Argentina (alta de 38,4%), Singapura (74,3%), Peru (22,5%) e Chile (17%).
Segundo a associação, parte do crescimento das exportações para países como Argentina e Singapura não decorrem do tarifaço, mas de fatores externos, como a melhora econômica desses mercados e ajustes temporários nas rotas de abastecimento.
Em nota, a Abimaq explicou que o setor depende de longos ciclos de negociação, homologação e testes técnicos, o que torna impossível redirecionar rapidamente as vendas para outros mercados.
Para as indústrias de couro e calçados, móveis, têxtil, tabaco, armas e munições e madeira (coníferas), seguem ativas as taxas de 10%, relativas à Seção 122, e os setores ainda podem passar a enfrentar uma sobretaxa adicional de 25% com a decisão desta quarta-feira.
No setor do couro, houve uma queda de 14,5% entre o que foi exportado em 2024 e 2025, saindo de US$ 142,7 milhões para US$ 122 milhões. Até maio deste ano, foram enviados US$ 43,7 milhões em produtos.
Como alternativa, a indústria do couro relatou incremento de vendas a países como Coreia do Sul, Espanha e México no ano passado.
Já nos calçados, a variação foi mais discreta entre 2024 e 2025, saindo de US$ 132,1 milhões para US$ 130,2 milhões, segundo dados da ApexBrasil. Em contrapartida, a Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados), afirma que houve um “incremento significativo em exportações para países da América Latina”.
Considerando que o Brasil vende aos EUA principalmente sapatos de couro, a nova barreira prejudicaria em especial as regiões produtoras de Vale dos Sinos (RS), Vale do Paranhana-Encosta da Serra (RS) e de Franca (SP), segundo a Abicalçados.
“Não existe a possibilidade de redirecionamento das mercadorias exportadas para os Estados Unidos, pois, em sua grande maioria, são calçados desenvolvidos de acordo com a demanda daquele mercado”, diz nota assinada pelo presidente executivo da entidade, Haroldo Ferreira.
A nota enfatiza que todos os segmentos da indústria calçadista são afetados por uma eventual elevação das tarifas, mas que existem diferentes graus de dependência com relação aos EUA. A indústria moveleira, que teve um ano de 2024 com alta de 12% nas exportações aos EUA, fechou 2025 com queda de 3,6%, enviando US$ 76,5 milhões em produtos. Entre janeiro e maio de 2026, as empresas enviaram cerca de US$ 20 milhões. Cerca de 33% do que é exportado globalmente pelo setor é direcionado aos EUA.
Fonte: Folha de São Paulo
