Tarifa integral e lista de exceções maior: a expectativa das empresas para o novo tarifaço de Trump

Às vésperas do anúncio da decisão dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, governo e representantes do setor produtivo ainda apostam em roteiro similar ao adotado no ano passado: negociações que miram a ampliação da lista de itens isentos, redução ou reversão da alíquota. Nos bastidores, pessoas a par do assunto avaliaram ao Estadão/Broadcast que o cenário considerado mais provável nesta quarta-feira, 15, prazo final para a determinação do governo americano, é o de incidência integral da tarifa, com a possibilidade de alguns itens a mais na lista de exceções.

“Não vai ter tarifaço, não vai ter tarifaço”, disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), em São José dos Campos (SP), na segunda-feira, 13. A expectativa do governo é de que, em vez de uma tarifa abrangente, seja possível colocar produtos estratégicos na lista de exceções da taxação.

A proposta apresentada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) é calcada no âmbito da investigação conduzida pela Seção 301, instrumento adotado pelo governo americano para investigar e, se for o caso, aplicar sanções comerciais a países acusados de práticas que podem ser prejudiciais aos interesses das empresas americanas.

O risco neste ano é de que, diferentemente das tarifas impostas em 2025, a Seção 301 tem respaldo jurídico mais forte nos Estados Unidos. Punições baseadas nela têm menor chance de reversão judicial, sendo mais uma ofensiva — com grande teor político — da política comercial de Donald Trump sobre uma série de países.

No caso do Brasil, a investigação dos EUA menciona temas de supostas práticas comerciais desleais; proteção da propriedade intelectual; ferramentas de pagamento eletrônico, citando o Pix; deficiências no combate à corrupção e entraves para o mercado de etanol.

O presidente da Câmara Americana para Comércio do Brasil (Amcham Brasil), Abrão Neto, considera que ainda há “uma distância grande” a ser percorrida para um acordo entre os dois lados e que o cenário ainda está indefinido. “O cenário ainda está em aberto e não é simples. Mas ainda é importante buscar esse espaço para encontrar uma solução”, afirma ele, que reforça a continuidade das negociações entre os países.

Uma alíquota cheia de 37,5% isolaria o Brasil dos EUA

Se houver, de fato, a aplicação da tarifa cheia, segundo ele, o País terá um dos tratamentos mais restritivos para o acesso ao mercado americano, o que seria a consequência mais grave da medida. “Há a recomendação da tarifa de 25% e os 12,5% sob a alegação do trabalho forçado. A alíquota pode chegar a 37,5%. O Brasil ficaria praticamente isolado em relação a outros parceiros comerciais dos EUA”, alerta. Ele também afirma que a taxação eleva os custos e afeta o consumidor americano, sendo prejudicial para ambos os países.

O cenário político se mantém sinuoso, de acordo com especialistas consultados pela reportagem. A relação entre Trump e a família Bolsonaro e a proximidade das eleições presidenciais tendem a tornar o ambiente mais sensível e a reforçar o sentimento de incerteza. “São relações ainda difusas e difíceis de prever”, diz Lívio Ribeiro, pesquisador associado do FGV Ibre e sócio da BRCG Consultoria.

Ribeiro considera, porém, que as negociações brasileiras podem levar a uma ampliação da lista de isenções. “No fim, a expectativa é por uma negociação que exclua uma lista tão extensa de itens que, na prática, a alíquota efetiva deve ser muito menor do que a alíquota base aplicada”, resume.

A economia americana também tem interesse em não nos tarifar’

A diretora da LCA Consultoria Econômica, Verônica Cardoso, também espera algum tipo de alívio na decisão final americana, com mais itens isentos ou uma redução da alíquota. Segundo ela, a audiência pública e demais encontros devem ampliar a pressão por mudanças, tanto de exportadores brasileiros quanto de empresas americanas, que devem alegar dificuldade de substituir fornecedores. “A economia americana também tem interesse em não nos tarifar”, afirma.

Na análise de cenário da LCA, a fotografia atual já limita o choque agregado das novas tarifas. Cerca de 54% da pauta exportadora brasileira já estaria na lista de isenção, enquanto 25% segue na seção 232, referente ao que está em vigor desde o ano passado, restando perto de 21% mais diretamente sujeita ao novo pacote.

O câmbio deve ficar mais sensível a um novo tarifaço

O efeito sobre os mercados ainda é incerto. Embora o impacto no ano passado tenha sido mitigado, o câmbio deve ficar mais sensível frente a um novo tarifaço, com uma possível desvalorização do real se houver uma redução no volume total de dólares que entram no Brasil. “No entanto, se a redução das exportações para os Estados Unidos for compensada e substituída por outros destinos de exportação, o volume de dólares continuará o mesmo, neutralizando esse impacto”, diz Verônica Cardoso, da LCA. á o efeito na curva de juros dependerá de quão sistêmico será esse risco, segundo ela. “Se as empresas afetadas forem muito dependentes dos EUA, os investidores podem avaliar essas companhias com base em um risco maior, dificultando investimentos nesses setores. Se o risco for precificado como pequeno, terá menos chances de afetar o risco do Brasil como um todo”, diz.


Fonte: Estadão

Traduzir »