Empresas trocam de nome para surfar onda da IA, mas alta das ações dura pouco

Clara Murray

Londres | Financial Times

Dezenas de empresas listadas nos Estados Unidos tentaram embarcar na onda da IA (inteligência artificial) mudando a marca de seus negócios. A maioria teve um impulso inicial na valorização, mas o brilho da IA não durou.

A ex-empresa de calçados esportivos Allbirds está entre as maiores a mudar de foco, alterando oficialmente seu nome para Smartbird no mês passado como parte de uma transição da venda de calçados para servidores de alta performance equipados com chips de IA.

Pelo menos outros 27 grupos em setores que vão de tratamento de câncer a mineração de ouro mudaram seus nomes desde 2023 para adicionar termos relacionados à IA ou sinalizar um novo foco na tecnologia.

O interesse dos investidores em IA impulsionou uma alta nas ações de tecnologia, e muitas das empresas que anunciaram mudanças de marca para IA experimentaram um salto inicial no preço das ações. Mas a maioria dos grupos não conseguiu sustentar seus ganhos de valorização, segundo análise do FT.

A capitalização de mercado combinada das empresas que mudaram de marca aumentou US$ 8,7 bilhões (R$ 47,7 bilhões), ou 106%, no pico pós-mudança em comparação com a semana anterior aos anúncios.

No entanto, mais da metade desses ganhos havia evaporado até o final do mês passado, com sete das empresas agora tendo uma valorização de mercado menor do que antes de anunciarem que estavam mudando de nome ou entrando na área de IA.

Essas mudanças de nome podem indicar que as empresas estão perseguindo o interesse dos investidores em um setor badalado como forma de extrair ganhos de curto prazo, disse Owen Lamont, gestor de portfólio da Acadian Asset Management.

“O mercado de ações americano se tornou mais dominado por investidores de varejo e mais afetado por redes sociais e pessoas usando aplicativos de negociação”, disse ele. “Essas mudanças de nome estão mirando investidores de varejo. Talvez não funcione permanentemente, mas funciona um pouco.”

A maioria das empresas são ações de microcapitalização ou de balcão “pink sheet”, várias das quais estavam em dificuldades antes de mudarem de marca.

A Hoth Therapeutics, uma empresa biofarmacêutica que desenvolve tratamentos contra o câncer, mudou seu nome para Rocket One e anunciou um novo foco em tecnologia de semicondutores e na “economia orbital” em maio, dois meses depois de seu auditor levantar “dúvidas substanciais” sobre sua capacidade de continuar operando.

A Myseum, uma rede social que se tornou Myseum.AI em abril, reportou receitas de apenas US$ 550 (R$ 2.811) em 2025. Uma ação pink-sheet mudou de nome quatro vezes, começando como um negócio de golfe em 2007 e depois operando uma mina de ouro em Honduras antes de embarcar na construção de data centers como BluSky AI em janeiro de 2025.

No Reino Unido, a fintech de crédito ao consumidor Investment Evolution Credit mudou seu nome para Amazing AI em maio de 2025, mas saiu da bolsa em janeiro deste ano.

Várias ex-mineradoras de criptomoedas também mudaram de marca. A Cipher Digital aumentou sua capitalização de mercado em cerca de 50%, para quase US$ 10 bilhões (R$ 51 bilhões), desde que mudou de Cipher Mining em fevereiro para se concentrar na construção de data centers.

Brett Knoblauch, analista de cripto da Cantor Fitzgerald, disse que mudar o foco para vender conexões de rede e GPUs em alta demanda para hyperscalers —os grupos corporativos que gastam bilhões em infraestrutura de IA— fazia sentido comercial para grupos de cripto.

“O apetite dos investidores por empresas de data centers de IA é muito maior do que o apetite por empresas de mineração de bitcoin toda a tese de investimento para essas empresas é [agora] a mudança de foco.”

Empresas que mudaram de marca durante booms tecnológicos anteriores também aumentaram suas valorizações. Ações americanas que adicionaram “com” ao nome durante a bolha das pontocom no final dos anos 1990 obtiveram retornos excedentes de 72% em até 10 dias após anunciar a mudança, segundo um influente estudo de 2000.

Outras empresas mudaram de foco durante o boom das criptomoedas no final dos anos 2010, incluindo a Long Island Iced Tea, uma empresa de bebidas cujo preço das ações subiu 500% depois que se tornou Long Blockchain em 2017. Em 2021, foi envolvida em uma investigação de insider trading, com a Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC) revogando o registro de seus títulos.

A “exuberância cripto” nos anos 2010 levou a aumentos substanciais no preço das ações de empresas renomeadas, mas aquelas que mudaram de marca também tenderam a sofrer um impacto de curto prazo nos lucros, segundo um artigo de 2021 de pesquisadores da Universidade de Zurique.

No entanto, uma análise do FT descobriu que, até agora, o boom da IA não estava inspirando mais mudanças de foco do que antes, com base nos códigos de setor listados nos relatórios anuais das empresas.

A SEC começou a mirar explicitamente o que chama de “AI washing”. Desde 2024, tomou medidas contra vários consultores de investimento e startups de tecnologia por enganar investidores sobre como estavam usando a tecnologia.

“Não há uma regra clara para uma mudança de nome ou de marca —mas se adicionar ‘IA’ ao nome de uma empresa sinaliza uma linha de negócios ou capacidade que não existe, esse é o tipo de declaração que provavelmente atrairá escrutínio da SEC”, disse Sean Fulton, advogado da prática de IA da DLA Piper.

Nadia Carlsten, CEO da Smartbird, disse que caracterizaria sua mudança de foco como “a criação de uma nova empresa de infraestrutura de IA em vez de uma mudança de marca para IA”, acrescentando que o negócio está sob nova gestão, tem finanças mais sólidas e está comprometido com sua estratégia a longo prazo. Lamont, da Acadian Asset Management, disse: “As empresas atendem ao sentimento atual dos investidores. Se os investidores gostam de coisas que têm IA no nome, as empresas vão atender a isso, e se isso mudar, elas vão atender à outra coisa.”


Fonte: Folha de São Paulo

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