As guerras modernas não são caras apenas a quem atira, mas para quem produz, investe e consome
No final de semana passado, enquanto as câmeras se concentravam em um octógono montado na Casa Branca, uma conta muito mais cara começava a chegar ao resto do mundo. A guerra contra o Irã custou bilhões e, caso continuasse, a estimativa seria de trilhões de dólares. A negociação exigiu muita diplomacia. O cessar-fogo exigiu meses de conversas. Mas a imagem que provavelmente circulará mais pelo planeta será o da luta de MMA.
O acordo anunciado encerra a fase militar mais intensa do conflito, reabre o Estreito de Ormuz e leva a uma nova rodada de negociações. Mas os objetivos estratégicos de longo prazo de cada lado continuam em disputa.
As guerras modernas não são apenas caras para quem atira. Elas são caras para quem produz, transporta, investe, financia e consome. O custo deixa de ser militar e passa a ser sistêmico.
A conta não chega apenas aos governos — ela aparece no preço da gasolina, dos alimentos, dos fertilizantes, dos juros e do crescimento econômico. Em um mundo interdependente, a guerra deixou de ser um problema regional. Tornou-se um imposto global sobre a incerteza.
Durante anos acreditou-se que a revolução do shale americano, as energias renováveis e a diversificação energética haviam reduzido a importância estratégica da região do Oriente Médio. Bastaram alguns meses de conflito e o fechamento do estreito para o petróleo disparar, cadeias logísticas serem interrompidas e governos mobilizarem reservas estratégicas. A guerra mostrou que o mundo continua dependente daquela região, mas agora descobriu que também é dependente da estabilidade geopolítica. Segundo o Pentágono, o custo direto da guerra para os EUA atingiu US$ 29 bilhões em maio. Mas diversos analistas consideram esse número conservador. Algumas estimativas independentes já apontam custo total americano próximo de US$ 70 bilhões.
Para a economia mundial, as estimativas citadas em estudos recentes sugerem a redução relevante do crescimento global, aumento da inflação mundial, risco de recessão em economias emergentes e, o pior, até 45 milhões de pessoas a mais levadas à insegurança alimentar caso o conflito persistisse.
O Instituto para Economia e Paz estimou que uma retomada da guerra poderia custar US$ 2,2 trilhões à economia mundial.
Talvez a Copa esteja ocupando espaço não porque o mundo tenha deixado de se preocupar com a guerra, mas porque o futebol oferece algo que a geopolítica já não consegue entregar. Em campo, alguém vence. Nesta guerra, os EUA proclamam sucesso, o Irã celebra sua sobrevivência e os mercados respiram aliviados. Mas o mundo ficou mais inseguro e ninguém consegue apontar um vencedor inequívoco. O futebol distribui taças. A geopolítica distribui custos.
Fonte: Estadão
