A Lula o que é de Lula: PT segue entregue ao autoengano sobre como e quando País saltou dos trilhos

Por Rogério Werneck

Em artigo recente no Substack, o ex-ministro Renato Janine Ribeiro ressalta a importância da restauração da funcionalidade do presidencialismo de coalizão, imprescindível para a gestão sustentável das contas públicas. Difícil discordar.

Razões para discordância só começam a surgir quando o autor expõe sua visão de como e quando essa funcionalidade foi perdida, ao afirmar que a gestão fiscal em bases sustentáveis, estabelecida nos governos FHC, foi mantida nos dois primeiros governos de Lula da Silva e no primeiro mandato de Dilma Rousseff. Mas teria se tornado inviável quando Dilma se viu sem apoio político no seu segundo mandato e a Presidência, enfraquecida, passou a sofrer perdas sucessivas de poder para o Congresso, num longo retrocesso que se arrastaria pelos governos Temer, Bolsonaro e Lula 3.

Tendo-se apressado a eximir Lula de qualquer culpa por tal retrocesso, o autor declara-se convicto de que só ele teria condições, num quarto mandato, de restaurar a funcionalidade do presidencialismo de coalizão e as bases da responsabilidade fiscal.

A argumentação padece de dois equívocos fatais. Não é verdade que houve gestão fiscal responsável no primeiro governo Rousseff. Não só a gestão foi desastrosa como, ao “fazer o diabo” para ser reeleita, em 2014, Dilma permitiu esconder do eleitorado, até o dia seguinte do segundo turno, a gravidade da devastação fiscal já então em curso. Ao converter o superávit primário de 2,1% do Produto Interno Bruto (PIB) de 2010 em um déficit de 1,9% do PIB, em 2015, e precipitar a economia numa recessão de 7% do PIB, Dilma Rousseff deflagrou a gigantesca crise política que pôs em marcha o enfraquecimento da Presidência e o empoderamento do Congresso.

A crise política não surgiu de um céu azul por obra da malevolência de Eduardo Cunha, como ainda hoje quer fazer crer o PT. Foi desencadeada pelo colossal descarrilamento da economia perpetrado por Dilma já a partir do seu primeiro mandato. E exacerbada pela eclosão do petrolão. O que leva ao segundo equívoco fatal. O que teve Lula a ver com tamanho desastre? Tudo! A ideia de alçar Dilma à Presidência da República foi de Lula e só dele. Teve de ser enfiada goela abaixo do PT.

É espantoso que se argua, agora, que só ele será capaz de reverter os desastrosos desdobramentos políticos e econômicos que essa sua ideia estapafúrdia ainda vem custando ao País. Não bastassem as lambanças do Lula 3. Já é hora de o PT quebrar seu pacto de amnésia coletiva sobre o descalabro do governo Dilma e seu rastro de destruição.


Fonte: Estadão

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