Pressão dos juros: Instabilidade geopolítica leva bancos centrais mundo afora a adotar tom mais duro
A disparada do preço do petróleo pegou os bancos centrais no contrapé. Se, na virada do ano, o cenário era de uma inflação mais comportada para 2026 e, portanto, havia uma expectativa de queda das taxas de juros na maioria dos países, o conflito no Oriente Médio levou as principais autoridades monetárias a revisar o seu plano de voo.
Nas últimas semanas, importantes bancos centrais passaram a adotar uma postura mais dura numa tentativa de domar a piora no cenário de inflação. Com a guerra, o barril de petróleo chegou a superar o nível de US$ 100, pressionando os preços dos combustíveis e dos fertilizantes.
apão
Na terça-feira, 16,o Banco do Japão subiu os juros para 1% – o nível mais alto em 31 anos. A autoridade japonesa citou os custos mais altos de energia.
Zona do Euro
Na semana passada, o Banco Central Europeu (BCE) subiu os juros em 0,25 ponto porcentual, para 2,25%. Foi a primeira alta desde 2023.
Na quarta-feira, 17, o Federal Reserve (Fed, banco central norte-americano) manteve inalteradas as taxas de juros do país na faixa entre 3,50% e 3,75%, mas adotou um tom duro em seu comunicado, divulgado depois da decisão. A maioria dos dirigentes do BC dos EUA espera uma subida dos juros neste ano. Cinco projetam que as taxas vão subir para entre 4% e 4,25%, três enxergam uma faixa entre 3,75% e 4%, e um acredita que a taxa pode ir para a faixa entre 4,25% e 4,5%.
“Quando se olha especialmente para o Fed, havia uma expectativa, antes da guerra, de dois cortes”, diz Arnaldo Lima, macroeconomista da Polo Capital. “O Banco Central Europeu foi mais forte ainda. Havia uma previsão de corte, mas o BCE já iniciou uma alta.”
O cenário de juros mais altos nas principais economias tem reforçado uma preocupação dos investidores com o endividamento público ao redor do mundo. O conflito também deve desacelerar o crescimento econômico global em 2026.
Brasil
No Brasil, também na quarta-feira, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu, pela terceira vez seguida, a taxa básica de juros em 0,25 ponto porcentual, para 14,25%, e destacou o cenário de incerteza.
“O ambiente externo permanece incerto em função da indefinição sobre os termos do acordo para cessar os conflitos armados no Oriente Médio e as consequências dos efeitos já materializados desses conflitos até o momento, com reflexos nas condições financeiras globais”, destacou o Copom em seu comunicado.
Na virada do ano, quando a taxa de juros estava em 15%, a expectativa era de uma redução bem mais agressiva dos juros. Com base no mais recente relatório Focus, divulgado pelo Banco Central, os analistas estimam que a Selic deve terminar este ano em 13,75% — no entanto, não há quem descarte os juros no nível de 14%.
“Caso haja um arrefecimento das tensões geopolíticas e uma reversão dos choques de oferta recentes, abre-se espaço para uma reancoragem das expectativas de inflação, especialmente para 2027″, diz Lima. “Diante desse cenário, continuamos esperando mais dois cortes de 0,25 ponto porcentual nas próximas reuniões, com a taxa Selic encerrando 2026 em 13,75%.”
Na virada do ano, a expectativa era de que o ciclo de corte levaria a Selic para 12,25%.
Os últimos números divulgados mostraram que a vida do BC brasileiro ficou mais difícil ao longo deste ano. A inflação já está acima bem acima da meta de inflação (3%) e ultrapassou o teto da meta (4,5%). Nos 12 meses até maio, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou alta de 4,72%.
As projeções para os próximos anos também estão piorando. Com base nas estimativas do Focus, as previsões dos analistas para o IPCA de 2027 são de 4,10% e, para 2028, de 3,68%.
Reino Unido Nesta quinta-feira, 18, será a vez do Banco da Inglaterra (BoE) decidir o rumo da sua taxa de juros. A expectativa é de manutenção em 3,75%.
Fonte: Estadão
