Mentiras da IA começam a aparecer no mercado
Ainda não há unanimidade sobre estarmos ou não em uma bolha da inteligência artificial, mas as empresas já começam a enfrentar a primeira onda de processos movidos por investidores insatisfeitos com as promessas vendidas ao mercado, como se a IA fosse uma bala de prata capaz de cortar custos, acelerar produtividade e aumentar lucratividade instantaneamente.
Em 2025, 17 ações coletivas (“class actions”) foram movidas contra empresas nos Estados Unidos apontando que promessas relacionadas a investimentos em IA e seus impactos nos resultados das companhias eram exageradas ou enganosas. A tendência chama atenção porque a tecnologia ainda é recente, mas já aparece em quase 10% das novas disputas federais envolvendo investidores e empresas listadas.
Os números vêm de um levantamento obtido com exclusividade pela coluna, elaborado pela Howden, grupo global especializado justamente na proteção de executivos envolvidos nesse tipo de disputa, por meio de seguros de D&O (responsabilidade civil para administradores). O documento completo está disponível para download no site Monitor do Mercado (clique aqui para baixar).
Esses processos envolvem o chamado “AI washing”, expressão inspirada no “greenwashing” ambiental. Na prática, empresas estariam inflando ou distorcendo o uso de inteligência artificial em suas apresentações para melhorar percepção institucional, inflar ou sustentar seu “valuation” ou convencer investidores de que estavam na fronteira da inovação. Mas tudo não passaria de tópicos no PowerPoint.
E os investidores começaram a perceber que a IA ainda aparece muito mais nas narrativas corporativas do que nos resultados financeiros. Como escrevi nesta Folha, em março, o impacto econômico da inteligência artificial permanecia concentrado nas empresas que vendem infraestrutura para IA —fabricantes de chips, nuvem e processamento.
Nos últimos dois anos, mencionar inteligência artificial virou quase uma obrigação corporativa. Mas o discurso vazio agora também começa a se transformar em risco jurídico para executivos e conselhos de administração, que entram no bojo dos processos.
sso não vale apenas para quem prometeu crescimento acelerado ou tecnologia disruptiva. Os cortes de custos são um ponto sensível do “AI washing”. Uma pesquisa feita pelo site Resume.org com gestores de recursos humanos de mil empresas mostrou que 42% deles admitem citar a IA na hora de justificar demissões porque isso “soa melhor” do que falar em crise financeira.
O pensamento predominante no mercado era que empresas que conseguissem se associar rapidamente à inteligência artificial seriam premiadas com múltiplos maiores, percepção de modernidade e expectativa de crescimento acelerado. Mas não demorou muito para investidores (e escritórios de advocacia) perceberem a diferença entre apresentações de PowerPoint e balanços corporativos.
Ferramentas de inteligência artificial já aceleram tarefas e aumentam produtividade individual. O problema é fingir que isso já virou crescimento sustentável de receita, expansão de margens e aumento consistente de produtividade na economia real. No mercado financeiro, quando Nova York espirra, São Paulo costuma ter febre. Como o movimento de desmontar promessas exageradas começou por lá, talvez seja prudente olhar com mais atenção para empresas que passaram a apresentar inteligência artificial como resposta simples para seus problemas.
Fonte: Folha de São Paulo
