Do esterco de Londres em 1894 à inteligência artificial em 2026: o que aprender com as previsões?

Por Celso Ming

No final do século 19, cerca de 300 mil cavalos circulavam diariamente pela cidade de Londres. Puxavam carroças, carruagens ou serviam de montaria. Acumulavam-se nas ruas 3,6 mil toneladas de esterco por dia.

Em 1894, o diário The Times publicou uma previsão de especialistas baseada no crescimento do número de cavalos na cidade, de que, em 1944, Londres estaria soterrada sob 3 metros de esterco. Nesse meio tempo, apareceram o automóvel, o ônibus vermelho de dois andares e o metrô; os cavalos foram substituídos e a previsão se frustrou.

Esse tipo de previsão de caráter inexorável (ou “científica”) repetiu-se ao longo da história da humanidade. Os milenaristas criaram um movimento que espalhou a crença de que no ano 1000 aconteceria o apocalipse e o fim do mundo.

Outra, mais recente, foi elaborada pelo economista e matemático inglês, Thomas Malthus. Em seus Ensaios, escritos no início do século 19, previu que, dado o crescimento da população da Terra, estaria próximo o dia em que as possibilidades de aumento da área cultivada estariam esgotadas. Seriam, então, inevitáveis a fome, o morticínio em massa e a necessidade de reduzir o crescimento da população. Mas desde 1992, a população mundial cresceu mais de 2 bilhões, veio a Revolução Verde promovida a partir da atuação do agrônomo Norman Borlaug, a produção mundial de alimentos se multiplicou e continua se multiplicando e, apesar do boom demográfico, o desastre malthusiano não aconteceu.

No final dos anos 60, o chamado Clube de Roma, que reuniu 150 intelectuais, cientistas e empresários, advertiu que estava próximo o dia em que a produção de alimentos e de matérias primas chegaria a seus limites. Assim, a retração econômica global já estaria contratada. Mas, de lá para cá, aumentou a reciclagem, foram inventados outros materiais e mais essa previsão alarmante foi afastada.

Hoje, nem mesmo marxistas radicais esperam a instalação que se entendia inevitável da ditadura global do proletariado.

A revista The Economist da semana passada trouxe uma matéria que diz tudo pelo título: “Prepare-se para um apocalipse de empregos causado pela Inteligência Artificial (IA)”.

Não dá para carimbar como alarmistas essas novas previsões. O apocalipse do trabalho assalariado tal como o conhecemos ainda não começou, mas está a caminho. Nos próximos vinte anos, um número incomensurável de empregos, principalmente na área de serviços, terá desaparecido para sempre ou terá mudado radicalmente.

Se o passado serve de modelo para o que vem pela frente, como Londres a partir do final do século 19, que viu mudar o tipo de esterco que a teria sepultado, a economia mundial também encontrará formas de lidar com as transformações no mercado de trabalho. A saída que se prevê será a de que o Estado regulador intervirá para garantir a transferência de renda para o cidadão comum. Quem sobreviver, verá.


Fonte: Estadão

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