Rejeição de Messias implode relação entre Lula e Senado, e governistas discutem reação
Brasília
A derrota imposta pelo Senado ao presidente Lula (PT) com a rejeição da indicação de Jorge Messias como ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) despertou a fúria de governistas contra Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), presidente da Casa.
Parte dos aliados de Lula fala em declaração de guerra entre o governo e a presidência do Senado. Uma das ideias defendidas nesse setor é uma ofensiva governista no Amapá, estado de Alcolumbre, para reduzir o poder do grupo político do senador.
Outra ala pondera que um rompimento não é viável porque o petista ainda precisa aprovar projetos no Congresso antes da eleição, como o fim da escala de seis dias de trabalho por um de descanso.
O consenso entre esses setores é que a relação entre o petista e Alcolumbre ficará péssima e sem confiança. Nem a ex-presidente Dilma Rousseff (PT), que sofreu impeachment em 2016, teve um indicado para a corte rejeitado pelo Senado –isso não acontecia desde 1894.
Opositores avaliam que, com o resultado, o governo ficará irreversivelmente enfraquecido no Senado.
Alcolumbre foi contra a indicação de Messias desde o fim do ano passado, quando o anúncio foi feito pelo governo. Ele queria que Lula tivesse escolhido o ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSB-MG).
Logo no início da discussão, o presidente do Senado indicou nos bastidores que trabalharia contra o indicado e sugeriu a aliados a possibilidade de deixar a votação para depois da eleição presidencial.
Nas últimas semanas, governistas avaliavam que a resistência de Alcolumbre havia arrefecido. A análise era de que ele não estava ajudando, mas havia parado de se esforçar pela rejeição.
A interpretação não estava correta. Senadores relataram à Folha que, em datas próximas à votação, Alcolumbre pediu a eles que se colocassem contra a nomeação de Messias como ministro do STF. O presidente do Senado nega ter agido contra o indicado de Lula.
O líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), disse a jornalistas que não houve participação de Alcolumbre na derrota do governo. “A relação seguirá de forma institucional”, declarou.
Nos dias anteriores à votação, diversos senadores avaliavam que Messias corria o risco de ser rejeitado. Só o que poderia garantir uma aprovação, por esse raciocínio, seria um gesto de Alcolumbre em favor do indicado de Lula.
Aliados do governo se perguntam o que motivou Alcolumbre a escalar a este ponto os atritos com Lula. Ele e o petista construíam uma aliança no Amapá para conter um grupo político bolsonarista em ascensão no estado.
A derrota também desgasta o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), e o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães (PT). A articulação política do Executivo, liderada por eles, previa nos últimos dias que Messias teria 45 votos e seria aprovado.
Os ministros do STF são indicados pelo presidente da República, mas a nomeação só é concluída se houver aprovação pelo Senado. É necessário ao menos 41 votos favoráveis para um indicado ser aprovado.
Senadores ouvidos pela reportagem também interpretam que a rejeição de Messias aumenta o desgaste entre a Casa e ao menos parte do STF. Ministros como André Mendonça, Kassio Nunes Marques e Gilmar Mendes vinham fazendo campanha a favor do indicado de Lula. André Mendonça é relator dos inquéritos sobre desvios de aposentadorias no INSS e sobre as fraudes financeiras do Banco Master. Nunes Marques está à frente da operação Overclean. As três relatorias são politicamente sensíveis.
Fonte: Folha de São Paulo
