Novo pacote de renegociação gera receio sobre risco moral
O pacote do governo para endividados chegará num momento em que o custo do crédito segue pressionado pela inadimplência e pelos efeitos da guerra no Oriente Médio, que limita o espaço para o Banco Central (BC) cortar os juros. Nesse sentido, representa um alívio bem-vindo para as famílias que estão asfixiadas por dívidas caras. Há, porém, preocupações entre economistas com uma nova rodada de endividamento, ainda que a taxas inferiores às praticadas hoje no mercado, e com o risco de o programa incentivar o não pagamento de dívidas.
“É importante ter muita cautela em programas de renegociação em massa, porque você pode incentivar as famílias a se endividarem novamente e a não pagarem suas dívidas, à espera de um novo programa”, comenta a economista-chefe do banco Inter, Rafaela Vitória.
“Então, no curto prazo, há um efeito positivo, mas também um moral hazard (risco moral): as famílias podem se alavancar novamente e novamente ficarem em inadimplência, esperando o governo voltar a dar uma saída”, acrescenta Rafaela.
Diante das dívidas assumidas a juros mais altos nos últimos anos, Rafael Ihara, economista-chefe da Meraki Capital, comenta que a situação financeira dos brasileiros ficou delicada. Isso exigirá uma desalavancagem pela redução do consumo, porém num processo que poderá ser irregular. “Talvez estejamos num ponto em que as famílias, de fato, consumam um pouco menos. Mas, falando de forma mais técnica, pode ter uma não linearidade”, observa Ihara.
Em estudo publicado na semana passada, o departamento de pesquisa econômica do Bradesco estima uma redução de 0,5 ponto porcentual no custo do crédito a cada queda de 1 ponto porcentual na taxa Selic. O valor gasto pelos brasileiros com a dívida teria, assim, uma redução de 1% num prazo de seis meses.
A taxa de juros do estoque da dívida das famílias atingiu 37,5% ao ano em fevereiro, a maior de uma série estatística iniciada em 2013. Segundo Fernando Honorato, economista-chefe do Bradesco, a dívida das famílias no Brasil é baixa se comparada à de pares emergentes e da América Latina. O problema, pondera, está no custo que leva a um elevado comprometimento de renda. Apesar disso, o economista-chefe do Bradesco entende que a redução da Selic pode trazer um alívio ao serviço da dívida, abrindo espaço para que o crédito continue em expansão e sustente o consumo. “No fundo, tem muito espaço para o crédito crescer em várias frentes no Brasil na próxima década”, assinala Honorato.
Fonte: Estadão
