Cármen Lúcia reconhece tensão no STF em meio a caso Master e diz: ‘Eu não faço nada errado’

Ana Gabriela Oliveira Lima

São Paulo

Em um momento em que ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) recebem atenção pública pelo comportamento em casos como do Banco Master e de relatos de estranhamento entre os magistrados, a ministra Cármen Lúcia disse ter ciência da tensão que a corte vive e que, embora não possa falar em nome de todo o Supremo por não ser a presidente, consegue assegurar que ela não faz nada fora da lei.

“Da minha parte, digo: podem dormir tranquilos. Não há uma linha minha que esteja fora da lei”, afirmou nesta segunda-feira (13), durante palestra na Fundação FHC, no centro de São Paulo.

“Eu não faço nada errado”, completou. “Tenho ciência da tensão que vivemos.”

Cármen disse que o Brasil vive um momento de desconfiança generalizada, o que justifica em parte a crise do tribunal. Declarou, entretanto, que o STF precisa “mostrar ao povo que estamos ali para servir” e falou da necessidade de transparência das ações dos ministros fora de Brasília.

A ministra avalia ser saudável que os magistrados saiam de seus gabinetes para ouvir a sociedade, mas que o movimento precisa ser divulgado e explicado. “Tem que saber como sair, para onde ir e como torna isso transparente. Todo mundo sabe, no Brasil hoje, que eu estou aqui agora de manhã. Minhas agendas são públicas”, exemplificou.

A magistrada falou que essa transparência ajuda o Poder Judiciário, o STF e, principalmente, a convivência entre os ministros. “Nesse momento de maior tensão, em que se questiona tanto o próprio Supremo na sua dinâmica, uma parte do que eu escuto é fato: mais tenso, muito mais difícil a vida de todos.”

Cármen Lúcia disse que a corte vive fase de “questionamento”. Afirmou também receber, como ministra, “críticas ácidas” e que nesses momentos repete para si mesma: “Cármen, lembra, você faz direito, não milagres”.

A magistrada afirmou também ser alvo de discurso “sexista, machista e desmoralizante” e que familiares já sugeriram que deixasse o cargo.

Questionada sobre sugestão de mudanças no STF reunidas por especialistas em um documento organizado pela Fundação FHC e entregue à corte, a ministra sinalizou que algumas propostas podem não ser condizentes com os desafios internos do tribunal, marcado pelo excesso de demanda.

Ela criticou o volume de ações que chegam ao Supremo, dizendo que a corte tem rotina marcada por muitas atribuições. Citou também mudanças tecnológicas, como as redes sociais, para explicar que os juízes não têm respostas prontas para problemas inéditos, o que aumentaria o desafio da corte na atualidade. “Cada manhã nós temos uma indagação nunca feita antes na história da humanidade. Por exemplo, sobre as redes sociais.”

A ministra falou ainda sobre a dificuldade no exercício de ser presidente do STF. “Sei o que é estar na presidência tentando acertar. Não é simples. Não tem facilidade nenhuma.” A fala da magistrada se deu durante palestra na Fundação FHC, em evento que faz parte de um ciclo de debates com lideranças públicas sobre os desafios do Brasil. Mediaram a conversa Celso Lafer, ex-ministro das Relações Exteriores, Oscar Vilhena, professor da FGV Direito SP e colunista da Folha, e o cientista político Sergio Fausto.


Fonte: Folha de São Paulo

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