Fusões e aquisições entre empresas de banda larga devem voltar a crescer

As empresas que atuam no setor de internet por banda larga fixa tendem a acelerar os movimentos de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês) a partir deste ano – algo que tem a ver mais com necessidade do que oportunidade. Em 2025, ocorreram apenas 14 M&As no setor, o menor patamar desde que a fibra ótica começou a despontar, na década passada. Já no auge do crescimento desse mercado, em 2021, o montante foi de 35 transações. Para 2026, a previsão é que as compras e vendas de provedores voltem a crescer.

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As perspectivas fazem parte de um estudo assinado pelo Líder de Telecomunicações da Alvarez & Marsal, Renato Paschoarelli, o Líder de Mercado de Capitais, Fernando Szterling, e o analista de Mercado de Capitais, Fernando Faria, e compartilhado em primeira mão com a Coluna. “As fusões tendem a se acelerar porque a necessidade está ficando mais premente. É um movimento forçado”, avaliou Paschoarelli.

O mercado de internet por banda larga teve um crescimento relevante no primeiro ciclo, entre 2018 e 2022, com ajuda de medidas regulatórias que dispensaram as pequenas empresas de cumprir as mesmas obrigações de atendimento, qualidade e prestação de contas que as grandes operadoras. Esse ciclo foi marcado pela ampliação das redes de fibra ótica e a atração de novos clientes.

Ritmo de crescimento do mercado diminui

Desde 2018, o total de assinantes de banda larga subiu 72%, segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), passando de 31,2 milhões para 53,8 milhões. Hoje, porém, o serviço já está bem difundido e não tem fôlego para crescer no mesmo ritmo. Entre 2024 e 2025, a expansão foi de apenas 2,5%. Com isso, o setor mudou o foco do crescimento acelerado para a busca por estabilidade e geração de caixa.

O time da Alvarez & Marsal observa que as empresas enfrentam desafios relevantes. A disputa por clientes está maior, sem espaço para os provedores subirem os valores dos planos de banda larga. Além disso, a taxa de cancelamento é alta: cerca de 20% a 25% dos clientes trocam de provedor anualmente. Nesse sentido, as fusões tendem a surgir como uma alternativa para as empresas ampliarem a base de clientes e o faturamento, ao mesmo tempo em que diluem as despesas relacionadas a manutenção das redes, propaganda, equipamentos e investimentos. O grande exemplo que abriu esse ciclo foi a combinação dos negócios entre a Vero e Americanet, em 2023.

De lá para cá, entretanto, muitas negociações travaram, afetadas pela subida dos juros da economia brasileira, que atrapalham os investimentos. No entanto, os juros altos também estrangulam as contas das empresas que se endividaram para construir redes de fibra ótica no passado recente visando ganhar participação de mercado. “É natural essas operações começarem a se aglutinar. As empresas continuam alavancadas e com custos elevados. Nada melhor que ampliar receitas para diluir esses custos”, acrescentou Paschoarelli.

Com a estagnação das receitas e com os juros altos, o apetite dos investidores pelo setor caiu consideravelmente nos últimos anos. A título de comparação, em 2021, as empresas de telecomunicações listadas na Bolsa tinham um valor de mercado equivalente a 16 vezes o seu lucro operacional medido pelo Ebitda (lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização). Hoje, isso está em cerca de quatro vezes. “Aquela visão sonhadora de que o setor de telecom traria ganhos gigantescos está se dissipando. Os setores que demandam muito capital e têm muita competição exigem também a busca incessante por ganhos de eficiências”, afirmou Paschoarelli.

Aposta é no aumento das transações

O cenário criou muitas dificuldades para os fundos de private equity, que investiram alto na consolidação dos provedores, mas ficaram impossibilitados de monetizar esses aportes por meio de oferta de ações dessas empresas na Bolsa, algo que secou nos últimos anos. Por isso, a aposta da consultoria é no aumento de fusões e aquisições. O analista de Mercado de Capitais, Fernando Faria, disse que o setor tende a se beneficiar indiretamente da abertura de capital de empresas brasileiras nas bolsas norte-americanas, como foi o caso recente do PicPay, combinado com o maior apetite de investidores estrangeiros por ações de empresas brasileiras. “A abertura do olhar do investidor para mercados emergentes vai beneficiar o mercado de telecomunicações no Brasil, entre outros setores”, apontou Faria.


Fonte: Estadão

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