PF faz nova operação contra o Master e mira fundos suspeitos de fraude; R$ 5,7 bi são bloqueados
Adriana Fernandes Constança Rezende
Brasília
A Polícia Federal deflagrou nesta quarta-feira (14) uma nova fase da Operação Compliance Zero contra pessoas supostamente envolvidas em fraudes realizadas pelo Banco Master por meio de fundos de investimento, incluindo empresários.
A ação teve 42 mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Daniel Vorcaro, dono do banco, parentes dele e donos de empresas, além de sequestrar e bloquear bens no valor de R$ 5,7 bilhões.
Vorcaro cumpre prisão domiciliar em São Paulo e foi um dos alvos da operação, que também fez buscas contra João Carlos Mansur —fundador da Reag, gestora investigada no caso Master e suspeita de envolvimento com o crime organizado— e o investidor Nelson Tanure. Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, chegou a ser preso no começo da manhã quando se preparava para deixar o país, de jatinho, com destino a Dubai e foi solto horas depois.
Além de São Paulo, mandados foram cumpridos em Minas Gerais, Bahia, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.
A nova fase da Operação Compliance Zero teve como foco a atuação de fundos de investimentos que teriam sido usados para inflar o patrimônio do Master. Como revelou a Folha, o BC (Banco Central) identificou seis fundos suspeitos de fazer parte do esquema de fraude capitaneado pelo ex-banqueiro.
Esses fundos participavam de um esquema bilionário para desvio de recursos e compra de ativos podres. O esquema começava com empréstimos feitos pelo Master a empresas. Essas companhias aplicavam o dinheiro recebido em fundos da gestora Reag.
A suspeita é que dinheiro dos fundos tinha como destino final indivíduos que operavam como laranjas de Vorcaro. Segundo um integrante da PF, a nova operação teve como alvo os responsáveis por essas fraudes.
A defesa de Vorcaro afirmou que tem colaborado com as autoridades competentes e que todas as medidas judiciais determinadas serão atendidas com transparência.
Em nota, a defesa de Tanure disse que “jamais enfrentou qualquer processo criminal em razão de suposta prática delitiva no contexto das empresas em que é ou foi acionista” e que ele teve o telefone celular apreendido na operação desta quarta. O empresário também negou, por meio de seu advogado, qualquer relação societária com o Master, afirmando ser apenas um cliente.
Tanure é dono de empresas que tiveram valorização relâmpago via fundos de investimentos administrados pela Reag, gestora investigada no caso Master e suspeita de envolvimento com o crime organizado. Ele também é cotista de fundos hospedados na Reag. Entre as empresas de seu portfólio estão a Prio (antiga PetroRio), a Gafisa e a varejista Dia.
“O empresário tem certeza de que no decorrer das apurações promovidas pelo STF restará definitivamente demonstrada a inexistência de qualquer pretensa prática ilícita oriunda dessa relação”, disse o advogado do investidor.
Já a defesa de Mansur afirmou que não teve acesso à investigação, mas que está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.
O empresário deixou a presidência do conselho de administração da Reag em setembro de 2025 para conter a crise de credibilidade da gestora após uma operação contra atuação do PCC no setor financeiro.
A assessoria de Zettel negou irregularidades e afirmou que, apesar de não ter tido acesso ao teor das investigações, está à disposição das autoridades. Em nota, disse que o empresário tem atividades conhecidas e lícitas, sem relação alguma com a gestão do Master.
Zettel foi alvo de prisão temporária, com o objetivo de resguardar o sigilo da segunda fase da operação. Segundo pessoas a par da ação, há suspeita de que a informação teria vazado.
Casado com Natalia Vorcaro, irmã do banqueiro, Zettel é pastor da igreja Lagoinha e foi detido no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, mas solto em seguida. A PF tinha a informação de que ele viajaria à 00:50. A decisão determinou ainda a apreensão do passaporte do empresário e a proibição de que ele saia do país.
De acordo com a defesa, o empresário tinha viagem de negócios programada para o Bahrein, com passagem de volta emitida para o dia 6 de fevereiro. A detenção temporária teria sido feita, segundo os advogados, para evitar frustrar as outras diligências da PF.
Segundo a Polícia Federal, durante a ação foram apreendidos R$ 645 mil em espécie, 30 armas, incluindo revólveres e fuzis, além de 31 computadores, 39 celulares e 23 veículos que, somandos, são avaliados em R$ 16 milhões.
Na primeira etapa da Operação Compliance Zero, em novembro, Vorcaro também foi preso enquanto tentava embarcar para Dubai num jato particular. O banqueiro é acusado de liderar um esquema que criou carteiras falsas de crédito para inflar o patrimônio do Master e, em seguida, vender a instituição financeira ao BRB (Banco de Brasília).
O objetivo desta nova fase, segundo autoridades que acompanham as investigações, é aprofundar a coleta de informações sobre os artifícios usados pelo Master ao longo dos anos para executar a suposta fraude.
A Compliance Zero investiga os crimes de organização criminosa, gestão fraudulenta de instituição financeira, manipulação de mercado e lavagem de capitais.
TOFFOLI
A ação desta quarta foi autorizada pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Dias Toffoli, que se tornou o responsável pelo inquérito do Master no fim de 2025. O ministro manteve a condução do inquérito em sigilo e tomou decisões questionadas no mundo político e no mercado financeiro.
Nesta quarta, Toffoli criticou a Polícia Federal e exigiu explicações em 24 horas do diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, pelo não cumprimento dos prazos determinados por ele na segunda fase da operação.
As críticas constam do despacho assinado na terça-feira (13), em que determinou a busca e apreensão em endereços de Vorcaro, a prisão temporária de Zettel, e ainda busca de informações de Tanure. As medidas foram requeridas pela PGR (Procuradoria-Geral da República) em 6 de janeiro e deferidas pelo ministro no dia seguinte.
A decisão de Toffoli veio com a ordem para cumprimento das diligências no prazo de 24 horas, contadas a partir das 14h52 do dia 12 de janeiro. Em despacho do dia seguinte, Toffoli reclamou que o prazo não foi seguido.
“A falta de empenho no cumprimento da ordem judicial para a qual a Polícia Federal teve vários dias para planejamento e preparação, o que poderá resultar em prejuízo e ineficácia das providências ordenadas”, acrescentou.
No despacho que autorizou as buscas desta quarta, Toffoli relatou ter negado parcialmente um pedido anterior, mas que reconsiderou após novos argumentos trazidos pela PF e pela Procuradoria-Geral da República. O ministro disse ter mudado de ideia a partir da nova argumentação, “diante da evidência de prática de novos ilícitos, supostamente cometidos pelo investigado”, conforme afirmado pela PF. Na decisão, ele não deixa claro qual seria o motivo da rejeição inicial.
À noite, Toffoli reconsiderou decisão tomada mais cedo e determinou que o material apreendido na operação desta quarta seja encaminhado à PGR. Antes, o ministro havia ordenado que todas as provas colhidas fossem fossem lacradas e guardadas no STF.
A medida foi considerada incomum por peritos federal. O procurador-geral, Paulo Gonet, se manifestou sobre a decisão e pediu que o ministro reconsiderasse, dizendo que a análise do material poderia acrescentar elementos sobre a participação dos investigados. Toffoli concordou e afirmou que o material é mais amplo que o inquérito aberto inicialmente.
Como a Folha revelou, duas empresas ligadas a parentes de Toffoli tiveram como sócio um fundo de investimentos conectado à teia usada pelo Banco Master em fraudes investigadas por autoridades, de acordo com documentos e dados oficiais analisados pela reportagem. Na ocasião, a Folha procurou a assessoria do STF e perguntou se Dias Toffoli tinha conhecimento dessas conexões e se ele considera que as informações criam algum empecilho para a condução do caso, mas o ministro não respondeu até a publicação desta reportagem. Parentes do ministro também não se manifestaram.
Fonte: Folha de São Paulo
