Tarifaço de Trump é ‘horror econômico, geopolítico e moral’, diz André Esteves, do BTG
BRASÍLIA – O presidente do conselho de administração e sócio sênior do BTG Pactual, André Esteves, disse que a situação nos Estados Unidos com o tarifaço promovido pelo governo de Donald Trump é um “horror”.
“É um horror econômico, é um horror geopolítico, é um horror moral. Estou achando um horror. Agora, o Brasil é menos afetado. Por que ele é menos afetado? Porque a tarifa é um instrumento essencialmente contra produtos industrializados, ou pelo menos ele é muito mais efetivo de produtos industrializados”, disse na 11ª. Brazil Conference, evento anual realizado pela comunidade brasileira de estudantes na região de Boston que ocorre neste sábado, 12.
A avaliação dele é que a guerra comercial real é entre Estados Unidos e China e que, apesar de imprevisível, a América Latina está um pouco fora desse ambiente.
“Mesmo nessa largada meio doida, tivemos 10% de tarifa, que não muda muito a vida. Eu acho que estamos mais protegidos disso. Devemos usar, pelo contrário, a nossa vocação para o multilateralismo, a nossa boa relação com todas as regiões do mundo, que são um privilégio brasileiro, que não nasceu por acaso, nasceu pela nossa índole. Nós somos assim. Nós temos boas relações com os Estados Unidos, com a Europa, com o Oriente Médio, com a China, com nossos vizinhos, e que seja assim”, destacou.
Nesse sentido, ele defendeu que o Brasil mire nos setores em que têm vantagens comparativas, como a força do País no agronegócio e que acaba se protegendo do impacto do tarifaço.
‘Estamos com juro muito apertado e fiscal muito frouxo’
André Esteves também comentou a política fiscal e monetária do País. “Estamos com o juro muito apertado e o fiscal muito frouxo. É mais ou menos como se você estivesse dirigindo um carro e você estivesse com um pé no acelerador e outro pé no freio. Naturalmente, o carro não vai seguir, não vai fazer aquilo que você, o que ele poderia fazer de melhor. Então, o juro está excessivo. Estava na hora de apertarmos um pouquinho o fiscal e o juro podia cair. Esse é um mix mais adequado para o momento”, avaliou.
Esteves reforçou que o BC trabalha com as variáveis que tem e sua meta é convergir a inflação para 3%. “O juro está muito alto, mas o Banco Central está fazendo o trabalho dele. Mas eu acho que o todo de política econômica podia facilitar um pouco a vida do BC”, afirmou.
Ele também disse que não é pessimista e que “está fácil consertar o Brasil”, porque as fórmulas já são conhecidas e passam por mudanças estruturais.
Se você olhar nos últimos oito anos mais ou menos, fomos o país que mais fez reformas estruturais no mundo. Durante a pandemia, fizemos reformas estruturais. Pouquíssimos países fizeram, tanto a nível macro quanto a nível micro”, disse. Ele destacou a reforma tributária, que está longe do ideal mas faz andar para frente, e o novo marco regulatório do saneamento.
Sua avaliação é de que esse conjunto de medidas fez o País “andar para frente”, num momento em que o desemprego é baixo e o déficit primário está perto de zero, apesar dos juros altos.
“A taxa de juros está (perto do nível de) 14%, porque a inflação está 5,5%. Para a nossa geração, 5,5% de inflação 20, 30 anos atrás era um sucesso absoluto. Era um sonho inalcançável. Era chegamos lá, agora somos civilizados. E, na verdade, na hora que o juros vai 14%, porque nós, sociedade, não aceitamos aquele 5,5%, tem de ser o 3%, que é a nossa meta, isso aí me enche de satisfação e de otimismo com o que podemos realizar”, disse. Para ele, não é preciso seguir nenhuma regra econômica sofisticada, mas o bom senso. “Se seguirmos o bom senso, vamos daqui para melhor”, disse.
Fonte: Estadão